Assim como são as coisas são as criaturas

Por Raul Lopes, em CONTOS

Assim como são as coisas são as criaturas

08 de Julho de 2019 às 11:52

Tem hora que a coisa em si deve ser deteriorada, ou melhor, se deteriorar. Quando nova e limpa qualquer mancha ou ranhura é perceptível e incomoda àquele que cuida. O gasto não, nesse, caso ocorra um abalo, além de não ser perceptível, pois está misturado a tantos outros, acaba tendo o seu charme, um charme combalido. Observe o caso dos músicos, o seu instrumento não é trocado de turnê em turnê, de ano a ano, existe uma atração por aquele instrumento gasto, como se aquilo tivesse vida própria. Num dia mais bem-humorado se permite tirar um timbre perfeito, em outro nem tão perfeito, teima em não responder da mesma forma, o instrumento adquire
alma.

João poderia perder dinheiro, mas nunca o humor de Doralice e olhe que João era daqueles que achava que possuir um pouquinho de cada um dos sete pecados lhe faria alguém mais preparado para vida, na dose avareza, a pitada era bem generosa. 

João não procurou o amor mas achou Doralice, moça pacata de hábitos simples e formação conservadora, João era filho único de pais de idade avançada. De quando se conheceram até o casamento o tempo foi curto. João mais indeciso, relutava entrar num relacionamento que faria dele um sujeito passivo de sentimentos. Doralice, por outro 
lado, sabia bem o que queria, queria viver uma paixão, mesmo que no dia da troca dasalianças isso ainda fosse uma aposta.

Os dois nunca brigavam, mas também muito se evitavam, mesmo com 10 anos de casados não possuíam filhos, era opção de João, achava que deveriam primeiro se estabilizar financeiramente para depois dar mais um passo no relacionamento.

Ele trabalhava como contabilista em uma loja de peças, emprego que vinha desde o estágio e que acabou sendo contratado na semana de seu casamento como presente dado pelo seu chefe. Ela trabalhava no período da tarde como professora particular, formada em letras, sempre quis ser escritora, mas enquanto a chance não vinha, tirava 
o sustento com adolescentes que almejavam uma boa nota na redação no ENEM.

João sempre saia de casa muito cedo e, enquanto Doralice dormia, preparava seu pequeno almoço que, invariavelmente, consistia numa xícara de café com leite e meia fatia de pão no formato de canoa com bastante manteiga. Eles não almoçavam juntos, Doralice em casa e João no trabalho, diariamente voltavam a se encontrar às 19h quando encerravam o expediente. 

Nada faltava à Doralice, pão quente diariamente, leite sempre fresco na geladeira, contas pagas e assinatura da Netflix. Do que João tinha medo? Não era da violência urbana, do preço da gasolina ou de sua taxa de glicemia, João tinha medo de magoar Doralice, aquilo sim faria João mudar a cor da pele, ele simplesmente tinha pavor de um 
mínimo abalo capaz de alterar a sua paz cotidiana.

Sempre que saia de casa João deixava o jogo de louça de seu café em cima da mesa, catava os farelos de pão, arrumava a sala e retirava a carne do congelador para o almoço  de Doralice, deixava a casa um brinco, impecável, assim como um alojamento militar. 

Ao acordar, Doralice sempre percebia que João, após o café, não repousava a xícara de café no pires, o que acabava por manchar a mesa de jantar com o fundo da xícara. Esse hábito era por ela odiado, mas se resignava em reclamar com João, saia de casa rangendo os dentes e diluía esse ódio em cada erro de português de seus alunos de forma que à noite não restava mais nada. 

Com o tempo aquilo passou a ser uma raiva de estimação, algo que se cultiva, por mais que Doralice procurasse algo mais odioso para cultivar, sua busca sempre era vazia, não havia nada que pudesse chateá-la, apenas a marca do fundo da xícara na mesa. O ódio lhe consumia diariamente. Doralice foi até onde pode, até que um dia resolveu por um fim naquilo. Esperou João chegar e sem pestanejar jogou em seu colo: “João, não da mais, cansei”.

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