Cascavel

Por Leandro Lages, em CONTOS

Cascavel

07 de Agosto de 2019 às 22:02

Após conferir o alvará de soltura, o funcionário do presídio solicita que eu aguardasse enquanto os agentes penitenciários localizam o presidiário. Finalmente aquele jovem seria solto.

A família havia me procurado em desespero na época da prisão para relatar a injustiça. O choro da mãe me comovera. Bom rapaz, trabalho fixo, iniciando a vida. Preso por engano pela amizade com o integrante de uma quadrilha que roubava joalherias. Estavam juntos em um bar no momento da prisão. Amigos de infância, seguiram rumos diferente na vida.

A quadrilha roubava as joias e as repassava a sacoleiros que as vendiam sem nota fiscal. Duplo crime: roubo e sonegação.

Acertei os honorários: um valor simbólico no início, uma quantia maior após a soltura e mais um tanto para acompanhar o processo até o fim.

No início de carreira se faz de tudo um pouco. Naquele momento, após sair da penitenciária, eu estava com o cliente no carro. Eu de motorista, ele no banco ao lado vislumbrando a paisagem urbana com o vidro abaixado, sentindo a brisa da liberdade. No banco de trás, a mãe, a namorada e uma irmã.

Por duas vezes ele se dirigiu a mim:

- Doutor, muito obrigado, vou pagar assim que chegar em casa.

- Tudo bem, não se preocupe, o mais importante era a sua liberdade.

Ao contrário dele, que agradecera a mim, no banco de trás a mãe suspirava aliviada e agradecia a vários santos.

Chegamos na casa da família. Entrei com todos eles. Outros já esperavam por lá: amigos, familiares, vizinhos. Abraços, lágrimas, comemorações. E eu assistindo a tudo aquilo. Sensação de dever cumprido, mas já começando a querer sair dali com os honorários no bolso.

Após vários cumprimentos, o rapaz percebeu que eu estava um pouco deslocado em um canto da casa. Veio rapidamente ao meu encontro e com um leve tapa em meu ombro fez um gesto com a mão para que eu o acompanhasse a um dos cômodos da casa.

Entramos em um pequeno quarto e ele fecha a porta girando a chave duas vezes. Enquanto eu aguardava em pé, ele se dirigiu a uma estante, abriu a última gaveta e retirou de lá uma pequena faca.

Em seguida, afastou o móvel da parede, agachou-se e enfiou a lâmina no piso, na junção que ficava entre duas cerâmicas, fazendo uma alavanca para retirar cuidadosamente uma delas, revelando um buraco no qual ele inseriu a mão direita e retirou um saco marrom. Ele apertou o saco para se certificar do volume e veio ao meu encontro com um sorriso aliviado.

Eu estava encostado no batente da janela do quarto. Ele se aproximou, retirou algo do saco e me exibiu falando:

- Doutor, isso vale bem mais do que os honorários que o senhor cobrou, pode ficar com tudo.

Ainda sem compreender direito, olhei bem para a sua mão e identifiquei vários cordões e colares dourados que se entrelaçavam e escorriam por entre seus dedos como serpentes se debatendo.

Permaneci em silêncio olhando aqueles objetos enquanto ele movimentava a mão e chacoalhava os cordões, produzindo um som que se assemelhava ao guizo de uma cascavel preparada para o bote. Ainda movimentando os cordões, aproximou-os do facho de luz solar que adentrava a janela e, ao contato com a luz, as joias produziram brilhos variados à medida que ele sacudia mais ainda a mão.

Aquele brilho cintilante lembrava o brilho da pele marrom-acastanhada de uma cascavel ao sol. Ainda em silêncio, estático, ouvia o som daquele guizo e mirava o brilho das joias como se fossem os olhos hipnóticos da cascavel em ponto de bote que tentava me convencer a pegar aquilo para mim.

Tudo isso durou silenciosos cinco segundos. Uma eternidade. Tempo suficiente para que o meu cérebro confrontasse aquela cena com a lembrança de que eu acabara de retirar do presídio um jovem que, segundo as minhas convicções, fora injustamente acusado de integrar uma quadrilha de ladrões de joias.

Como a ouvir um estalo, saí daquele estado de quase hipnose e voltei a mim após piscar fugazmente os olhos por três vezes, dando um passo para trás como a escapar do bote da cascavel. O rapaz estirou o braço em minha direção exibindo as joias e insistindo:

- Doutor, são de ouro puro, pode confiar, valem mais do que preço dos honorários que lhe devo.

- Meu jovem, não trabalho assim, acertamos em dinheiro e não quero mais do que o devido. Pode passar em meu escritório depois e pagar. Bom dia e até logo.

Virei as costas e saí da casa. Nunca mais vi aquele rapaz e nem recebi os honorários devidos.

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