Culpa do Bowie

Por Leandro Lages, em CONTOS

Culpa do Bowie

03 de Março de 2019 às 18:49

Já estava quase na hora daquela festa de família. E eu ainda deitado na rede terminando um capítulo daquele livro. Pensei: “Festa de família não tem hora para começar, dá pra chegar a qualquer momento”. E mergulhei em mais um capítulo.

Minutos depois a porta do quarto se abre e ela entra reclamando:

- Ainda está assim?

- Assim como? – respondo, fechando o livro com ar de falsa surpresa.

- O aniversário da sua tia não está marcado para 19h?

- Está.

- Já são 19h.

- E devemos ser os primeiros a chegar?

- Puxa, você sempre atrasa nesse tipo de compromisso! Resolvi passar para irmos no meu carro para não chegarmos atrasados de novo. Sua família deve achar que a culpa é minha, que eu não faço questão de estar com eles, e tal...

- Não se preocupe, cultivo esse hábito desde antes de namorarmos, minha família já sabe que eu sempre chego bem depois da hora marcada.

Ela ficou em silêncio. Cruzou os braços e me olhou com aquele olhar de quem gostaria que eu estivesse pronto em um piscar de olhos. Fechou os olhos, respirou fundo e os abriu novamente enquanto expirava. Respondi me espreguiçando na rede ao mesmo tempo em que tirava o lençol que servia de encosto para a cabeça e o envolvia entre os braços. Abri um sorriso despreocupado e fiz o convite:

- Vem pra cá, senta aqui na rede comigo.

Ela baixou a cabeça, levou a mão à testa e suspirou forte enquanto falava sem olhar para mim:

- Não acredito que você está nessa calma...

Eu sabia como irrita-la e gostava daquilo. E me agradava perceber que havia alcançado o meu objetivo.

A segunda fala veio mais imperativa:

- Levanta logo, vamos!

Me espreguicei de novo na rede e levantei calmamente, demonstrando que não estava seguindo à risca aquela ordem.

Antes de entrar no banheiro, liguei o som do quarto e coloquei algo do Bowie para tocar. Ela sentou na cama, tirou o salto e cruzou as pernas enquanto folheava uma revista e aguardava o meu ritual do banho. Parecia mais calma enquanto ouvia “Absolute Beginners”.

Após algumas músicas e chuveiradas, escolhi sem titubear as roupas para aquela noite. Nem sequer me arrisquei a pedir a sua opinião para não correr o risco de ter que trocar de roupa várias vezes.

No momento em que eu estava vestindo a camisa, começou a tocar “Sound and Vision”. Não sei por qual motivo, fiquei paralisado ouvindo os acordes iniciais da música e segurando a camisa ainda na altura do abdômen. Permaneci nessa posição estática por alguns segundos envolto pelo som.

Olhei para ela e me veio novamente aquela vontade de presenciar o seu rostinho se irritando. Ainda segurando a camisa, movimentei os braços no ritmo da música enquanto entoava os vocais iniciais “blue, blue, eletric blue...” Por coincidência a minha camisa era azul e comecei a desvesti-la para logo em seguida segura-la pelas pontas balançando na direção dela como se eu fosse um toureiro a irritar um animal enfezado à frente.

Ela olhou sem acreditar que eu não estava dando a mínima para o fato de estarmos atrasados para a festa. Permaneceu em silêncio e logo mudou de fisionomia. Naquele instante percebeu que era Bowie tocando, um justo motivo para o tempo parar. Ouvimos “Sound and Vision” até o fim e várias outras músicas. Saímos quando começou a tocar “Sorrow”. Mais uma vez chegamos atrasados à festa. Culpa do Bowie.

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