Estilhaços

Por Márcio Barros, em CONTOS

Estilhaços

17 de Abril de 2019 às 21:41

Três da madrugada. Desperto com o latido rouco dos cães do vizinho. Espremo os olhos tentando revolver o sonho anterior, mas é inútil. Levanto-me, ligo a luz. Vou à varanda. Em que sonhava mesmo? Não lembro... Minha memória virou um molambo. Acendo um cigarro. A fumaça do primeiro trago se funde à leve nevoa que empalidece as luzes amareladas dos postes. Há pouco movimento nas ruas. Vez ou outra o ronco de um escapamento nervoso irrompe a cantinela monótona dos grilos.

Tento não fazer barulho ao abrir a janela de vidro. Esqueço que a mulher e as crianças não estão mais aqui. Uma lufada de ar frio corta meu rosto. Fecho os olhos... Era irônico perceber que o momento em que mais sentia a falta deles era àquela hora, quando estariam todos dormindo. Às vezes, despertando agitado no meio da noite, costumava contemplá-los totalmente rendidos ao sono mais quedo e profundo.

De repente, ouço um estampido seguido de um esgar estridente e o som de vidros estilhaçados. Um alarme dispara. Abro os olhos, assustado. Observo as ruas desertas embaixo. Não havia ninguém. Era comum acordar àquela hora e quase não dormir mais. O sono era cortado frequentemente por vozes, latidos, buzinas, ronco de escapamentos. Por vezes chegava a distinguir no meio da barulheira, cobranças, queixas, insultos e lamúrias. A noite parecia carregar consigo uma realidade própria, latente, pronta pra submergir furiosa a qualquer momento.

Sento no sofá. Acendo o cigarro novamente. Em que sonhava mesmo? Não conseguia lembrar. Contemplo, na estante, o grande urubu rei empalhado, ao lado do busto de Apolo, numa pose altiva e inquisidora. Uma divindade também, com certeza. A mulher detestava-o. Via apenas um animal degradante e agorento. Mas havia nobreza na pose, serenidade e firmeza nas feições do rosto, traços que busquei captar, enquanto o empalhava, justamente, das expressões do busto de Apolo. E acho que consegui. Se o deus grego reencarnasse na forma de um urubu, seria daquela maneira, certamente, com toda sua majestade.

Acredito que os escultores, pintores e empalhadores são os verdadeiros poetas, pois captam a essência transcendente dos instantes. Aquilo que realmente interessa. Coisas que as palavras, por sua natureza limitada, conseguem apenas superficialmente, pois acabam corroendo a percepção. As palavras traem, são putas. Meus instrumentos de trabalho, não: São o substrato da matéria. Modestamente, considero-me um desses poetas.

Pego um livro na estante: As flores do mal. Leio as três primeiras páginas até chegar ao poema Que dirás tu essa noite, adormeço antes de chegar ao final da terceira estrofe. Tenho um sonho confuso e inquietante que não consigo distinguir. Acordo assustado com um piado estridente e sons de estilhaços.

Uma forte ventania havia varrido a sala espalhando livros e papeis pelo chão. A estátua de Apolo caíra, espatifando-se. Fecho a janela, rapidamente, e cato algumas coisas do chão. Desgraça! Seria impossível recuperar o busto. Amanhã recolho aqueles cacos e vejo o que faço, pensei. Felizmente, o urubu continuava intacto, observando-me com a mesma impavidez esnobe de sempre.

Acendo outro cigarro, abro a janela. Curiosamente, não havia nenhum vestígio de tempestade. O céu limpo já descortinava os primeiros sinais de claridade do dia. Cinco horas. Não poderia dormir mais. Logo deveria estar no trabalho. Tomo banho, visto-me e preparo o café de forma tão automática que quase não lembro de o haver feito.

Antes de sair do quarto, abro uma porta lateral do armário embutido. Percorro um corredor estreito até chegar a uma pequena sala. Contemplo a mais original e rica obra de arte que conheço. Uma mulher abraçada a duas crianças, deitados numa cama cuidadosamente desorganizada. A mulher traz no rosto adormecido a dignidade de nossa senhora, na Pietá de Michelangelo. As crianças têm a face virada para a mãe, de olhos fechados, em sinal de reverência. Tudo isso banhado por uma iluminação quase natural, ressaltando o que havia de mais sublime em cada um. A beleza da cena era assustadoramente real, com todos os seus inúmeros detalhes. Um trabalho de artesão, tão verossímil que tinha a impressão que podiam despertar a qualquer momento. Poderia ficar ali por horas...

Fecho cuidadosamente a porta do armário. Enquanto caminho pela sala, piso distraído sobre os restos de Apolo. Meu corpo está moído como se houvesse passado a noite num cubículo. Meus olhos ardem como se estive esfregado sabão neles. Terei um dia miserável pela frente e que certamente será menos real e suportável que os estilhaços da noite anterior. Ao fechar a porta tive a impressão que o urubu rei me observava.

Voltar