Ferrugem

Por Márcio Barros, em CONTOS

Ferrugem

16 de Julho de 2019 às 11:52

Do espólio de vinte anos de casado nenhum filho, muitos ressentimentos e algumas quinquilharias, como uma geladeira e um relógio de parede velhos. A geladeira estava inutilizada. A ferrugem carcomera-lhe o motor, a base e uma grande extensão da porta. Incrivelmente, ainda funcionava, mas esfriava em demasia, congelando o que houvesse por dentro. Não havia mais como recuperá-la...

O relógio parecia melhor que antes. A pátina cobria-o suavemente imprimindo-lhe o charme das coisas antigas que sobrepujam o tempo com nova substância. Não marcava mais as horas. Oferecia tão somente a beleza afetada da inutilidade.

Enquanto separava os objetos para a destinação, supôs o amor como aquela ferrugem implacável, que a uns esculpe nova essência, com os talhes do tempo e da dor, e em outros apenas infunde profundas e doridas chagas, que corroem e congelam tudo por dentro, de forma lenta e irreparável.

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