Me perco nesse tempo

Por Raul Lopes, em CRÔNICA

Me perco nesse tempo

28 de Março de 2019 às 13:58

Morei em Fortaleza de 1994-2000, período descontinuado com uma passagem por Recife no ano de 1995. Não havia uma super cena musical na cidade, mas vez ou outra dava pra assistir o Fernando Catau e o Dustan Gallas tocando pela cidade. Havia também lugares interessantes para por em prática um interminável bate papo musical, locais como o Jockerman (aquele da música do Dylan) e um outro que me lembro de ajudar a fechar ao final do expediente por várias ocasiões, o dono era botafoguense talvez por isso o nome do bar era Estrela (solitária) da Manhã ou alguma coisa assim.

 

Ontem a tarde assisti uma entrevista da Sandra Coutinho falando da época das Mercenárias, aproveitei e fui relembrar o disco: “Cadê as Armas?”, logo na primeira música: “me perco”, lembrei de uma versão gravada pela Ira! no disco 7. A gravação deve ter haver pelo fato do Edgar Scandurra fazer parte das Mercenárias, ele foi o baterista da banda até assumir a guitarra do Ira!. Mas eu quero chegar a outro ponto, especificamente um episódio ocorrido numa festa pré-show do Ira! que havia sido marcado para AA/BB no ano de 1996.

 

A festa foi no Biruta, um bar na praia do Futuro, frequentado por uma galera musical na metade dos anos 90. La pelas tantas me deparo com Marcos Valadão Ridolfi, também conhecido como Nasi, o vocalista do Ira!. Na época não tinha selfie, ora selfie, num havia nem internet que pudesse compartilhar informações ou fotos de bandas, mesmo assim pude reconhecer aquela figura agitada e comunicativa. Identifiquei o alvo e preparei caneta e papel (um cartão do Hollywood Rock de 96).

 

Após uma aproximação “involuntária” foi dele que partiu o contato. Nasi me pediu um isqueiro para acender um cigarro, essa foi a deixa. Ele pegou o isqueiro e não usou de imediato, ficou dançando e cantarolando a música que estava a tocar na hora: “Black Magic Woman” do Carlos Santana, ele cantava e sorria apresentando seus dentes entaramelados e esverdeado pelo uso além de recreativo do tabaco. Após incendiar um Marlboro vermelho eu achei que era a chance de pedir um autógrafo: “E aí Nasi, tu pode me dar um autógrafo?” e ele de imediato sorriu como se desse sinal verde, prossegui e entreguei a caneta e o papel, mas antes de assinar ele comenta: “Esse música do Santana é demais” e eu, claro, concordei com a cabeça.

 

Na hora de assinar, a famigerada caneta Bic, aquelas da tampinha azul, acabou falhando. Pensei, perdi a chance, mas eis que Valadão saca novamente o isqueiro, acende e coloca a ponta da caneta para esquentar, era aquele velho truque para destravar a bolinha da ponta da caneta. Como se tivesse acostumado a fazer aquilo, ao perceber que eu também conhecia aquela manobra, sorriu e continuou a esquentar a ponta. Após dar uma leve assoprada na pequena esfera da Bic, volta a tentar, desliza a ponta da caneta no papel e me entrega, agradeço e volto ao encontro dos amigos. Eufórico logo trato de mostrar a minha nova relíquia, mais um autógrafo pra minha coleção. O problema é que assim como no dia, a todo mundo que mostro o cartão ninguém sabe o que tá escrito, somente eu consigo enxergar naquele papel o nome Nasi.

 

Segue o dito autógrafo. Até agora me pergunto que hora que encontei com o Scandurra.

 

 

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