O dia em que Gabo aprontou uma comigo

Por Leandro Lages, em CRÔNICA

O dia em que Gabo aprontou uma comigo

17 de Abril de 2019 às 05:11

Comecei a ler Gabo a partir da sua obra mais conhecida: “Cem anos de solidão”. Até então nada sabia a respeito do seu estilo de escrita, me causando estranheza o primeiro contato com o realismo fantástico de suas obras.

 

Logo a leitura me envolveu e devorei com absorta concentração as páginas que contavam a saga da família Buendia.

 

Pesquisando sobre a obra, vi em algum canto da internet que Gabo escreveu “Cem anos de solidão” após ler “O tempo e o vento”, de Érico Veríssimo, sobre a tumultuada estória da família Terra-Cambará. E me senti obrigado a ler os sete volumes de “O tempo e o vento” para conferir a provável fonte de inspiração daquele genial livro de Gabo. Considero a obra de Érico Veríssimo bem mais envolvente.

 

Mas, voltemos ao Gabo. Enquanto acreditava que “Cem anos” era a sua obra suprema, iniciei a leitura de “Amor nos tempos do cólera” sem maiores pretensões. Logo nas primeiras páginas experimentei uma sensação quase real de estar em Cartagena. E o desfecho dos últimos parágrafos me faz colocar o livro acima de “Cem anos”, o que já motivou inúmeras discussões agradáveis com outros fãs de Gabo.

 

Depois de ler “Crônica de uma morte anunciada”, “O outono do patriarca” e “Memória de minhas putas tristes” veio aquela vontade de conhecer o país de origem de Gabo, a Colômbia, e quem sabe até encontra-lo nas ruas de Bogotá ou Cartagena.

 

A viagem não demorou a emplacar e lá fomos nós: eu, minha esposa Carminha e os casais amigos Ricardo e Leandra, Marcelo e Gabriela. Como leitura de bordo levei “Doze contos peregrinos” para entrar no clima da viagem ainda no voo.

 

Iniciamos em Bogotá. A cada caminhada pelas ruas da cidade sempre vinha aquela sensação de que toparia com o escritor em alguma esquina ou café. Fiz questão de ir ao Centro Cultural que leva o seu nome na esperança de encontra-lo recepcionando os visitantes, posando para fotos ou autografando livros. Mas nem sinal dele.

 

De Bogotá rumamos para Cartagena, onde percebi a extrema fidelidade narrativa dos livros. Todos os dias batia uma sensação de que já conhecia a cidade quando passava por alguma área estranhamente familiar.

 

Andar por Cartagena equivale a entrar nos livros de Gabo, em especial em “Amor nos tempos do cólera”. Em cada rua, praça ou casarão eu acreditava que os protagonistas da obra, Florentino e Fermina, realmente existiram.

 

Os dias passavam e nada de eu encontrar o escritor. Em um passeio de charrete, perguntei ao guia turístico sobre Gabo. Ele comentou que o escritor estava com a saúde debilitada e que o turismo de Cartagena devia muito às suas obras. Também disse que durante o passeio passaríamos em frente à residência dele.

 

Assim que o guia apontou para a casa, levantei rápido do banco para tentar olhar por cima do muro e quase levei um tombo da charrete em movimento. Imaginei que pudesse vê-lo aguando as plantas do jardim ou brincado com os netos.

 

Naquele dia dormi levemente satisfeito só por acreditar que havia passado muito perto de Gabo. No dia seguinte acordei cedo e antes de tomar café-da-manhã continuei a leitura de “Doze contos peregrinos”.

 

O conto da vez tratava de um pai cuja pequena filha falecera, mas mantivera o mesmo semblante de viva a ponto de ele não enterra-la. Mesmo com o passar dos dias e meses, a criança mantinha a fisionomia de uma pessoa viva e o pai a levava com naturalidade em passeios na esperança de que ela voltasse a viver.

 

Assim que terminei de ler o conto resolvi acessar algum portal de notícias pelo smartphone. A manchete daquele dia anunciava: “Morre Gabriel Garcia Márquez”.

 

Permaneci estático sem querer acreditar no que acabara de ler. Cliquei para saber se era verdade. A matéria informava que Gabo estava em tratamento médico e falecera naquela madrugada, no México.

 

Olhei para o livro que ainda estava em minhas mãos, lembrei do conto da criança falecida que aparentava estar viva e, ainda triste, refleti que suas obras o manteriam vivo para sempre.

 

Mas também não hesitei em concluir que Gabo havia aprontado uma comigo ao morrer exatamente no dia em que eu estava em Cartagena para tomar um café com ele.

 

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