A Gravidade de Robert Duvall

Por Maísa Carvalho, em ENSAIO

A Gravidade de Robert Duvall

19 de Fevereiro de 2026 às 14:31

Robert Duvall se foi aos 95 anos, deixando uma carreira de mais de seis décadas marcada por uma presença incomum – aquela que não pede atenção, mas toma conta da cena quando entra em quadro. A morte foi confirmada em fevereiro de 2026, e desde então críticos, diretores e colegas têm lembrado dele como um ator de força silenciosa, feito de precisão e convicção. 

Falar da morte dele soa estranho, porque parecia um homem que o tempo não alcançava. Duvall não era daqueles atores que performavam para a câmera. Quando ele chegava, dava a impressão de que a história começava nele. Em O Poderoso Chefão, ele falava pouco e dizia tudo no olhar; em Apocalypse Now, o mesmo rosto virava excesso (um coronel que praticamente tratava a guerra como se fosse rotina). A crítica chamou isso de vigor e sutileza: duas palavras que quase nunca cabem na mesma pessoa, mas cabiam nele.

Steve McQueen disse que ele era a rocha no set. Que tudo podia se desfazer se não houvesse alguém puxando a gravidade para o chão. É um elogio curioso, porque descreve bem o tipo de ator que Duvall foi: não o centro barulhento, mas o eixo.

Robert Duvall não acreditava muito em método ou truques. Observava gente. Guardava gestos, vícios, pequenos modos de existir. Depois devolvia isso em personagens que pareciam vivos demais para serem invenções. Quando decidiu filmar The Apostle, bancou o próprio filme porque ninguém queria fazê-lo, e, assim, apostou em si mesmo, mais uma vez.

Há algo de quase antigo nisso tudo. Um tempo em que atores carregavam o peso das histórias sem precisar explicá-las. Duvall fazia isso. Você o via na tela e sabia que aquele homem já existia antes do filme começar e continuaria existindo depois que as luzes da sala se acendessem.

Nos últimos anos ele apareceu menos, vivendo longe do ruído, numa fazenda, quieto, como se tivesse entendido cedo que a fama é só outra forma passageira, como a vida. 

Tenho que a morte dele não pareça exatamente um fim. Tenho mais impressão como uma pausa longa entre duas cenas. Os fãs falam dele como alguém que completou a vida, não no sentido fácil da frase pronta, mas como quem termina uma história inteira, sem pressa.

No cinema, ficam os homens que ele encarnou: o conselheiro frio, o militar enlouquecido, o pregador em busca de redenção, o velho teimoso que sempre sabe mais do que diz. Todos com aquela voz seca, quase cansada, como se já tivesse visto o mundo acontecer antes de todo mundo. Não é uma despedida triste. Não precisava ser. Alguns atores desaparecem quando morrem. Outros ficam mais nítidos.

Robert Duvall pertence ao segundo tipo.

E agora o silêncio – aquele que ele sabia usar tão bem – parece só mais uma cena que ele encarna.

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