Cascavel

Por Leandro Lages, em CONTOS

Cascavel

07 de Agosto de 2026 às 15:21

Após conferir o alvará de soltura, o funcionário do presídio solicitou que eu aguardasse enquanto os agentes penitenciários localizavam o presidiário. Finalmente, aquele jovem seria solto.

A família havia me procurado em desespero na época da prisão para relatar a injustiça. O choro da mãe me comovera. Bom rapaz, trabalho fixo, iniciando a vida. Preso por engano pela amizade com um integrante de uma quadrilha que roubava joalherias. Os dois estavam juntos em um bar no momento da prisão. Amigos de infância, seguiram rumos diferentes na vida.

A quadrilha roubava as joias e as repassava a sacoleiros que as vendiam sem nota fiscal. Duplo crime: roubo e sonegação.

Acertei os honorários: um valor simbólico no início, uma quantia maior após a soltura e mais um tanto para acompanhar o processo até o final.

No início de carreira, faz-se de tudo um pouco. E, naquele momento, após sair da penitenciária, eu estava com o cliente no carro. Eu ao volante e ele no banco ao lado, vislumbrando a paisagem urbana com o vidro abaixado, sentindo a brisa da liberdade. No banco de trás, a mãe, a namorada e uma irmã.

Por duas vezes, ele se dirigiu a mim:

— Doutor, muito obrigado. Vou pagar assim que chegar em casa.

— Tudo bem, não se preocupe. O mais importante era a sua liberdade.

Ao contrário dele, que me agradecera, a mãe, no banco de trás, suspirava aliviada e agradecia a vários santos.

Chegamos à casa da família. Entrei com todos eles. Outros já esperavam por lá: amigos, familiares, vizinhos. Abraços, lágrimas, comemorações. E eu assistindo a tudo aquilo. Sensação de dever cumprido, mas já começava a querer sair dali com os honorários no bolso.

Após vários cumprimentos, o rapaz percebeu que eu estava um pouco deslocado em um canto da casa. Foi rapidamente ao meu encontro e, com um leve tapa em meu ombro, fez um gesto com a mão para que eu o acompanhasse até um dos cômodos da casa.

Entramos em um pequeno quarto, e ele fechou a porta, girando a chave duas vezes. Enquanto eu aguardava em pé, ele se dirigiu a uma estante, abriu a última gaveta e retirou de lá uma pequena faca. Em seguida, afastou o móvel da parede, agachou-se e enfiou a lâmina no piso, na junção entre duas peças de cerâmica, usando-a como alavanca para retirar cuidadosamente uma delas. Revelou-se um buraco, no qual ele inseriu a mão direita e de onde retirou um saco marrom. Apertou o saco para se certificar do volume e se aproximou de mim com um sorriso aliviado.

Eu estava encostado no batente da janela do quarto. Ele se aproximou, retirou algo do saco e o exibiu para mim, dizendo:

— Doutor, isso vale bem mais do que os honorários que combinamos. Pode ficar com tudo.

Ainda sem compreender direito, olhei atentamente para a mão dele e identifiquei vários cordões e colares dourados que se entrelaçavam e escorriam por entre seus dedos como serpentes se debatendo.

Permaneci em silêncio, olhando aqueles objetos, enquanto ele movimentava a mão e chacoalhava os cordões, produzindo um som que se assemelhava ao guizo de uma cascavel preparada para dar o bote.

Ainda movimentando os cordões, aproximou-os do facho de luz solar que adentrava pela janela e, ao contato com a luz, as joias produziram brilhos variados à medida que ele sacudia ainda mais a mão. Aquele brilho cintilante lembrava o da pele acastanhada de uma cascavel ao sol. Ainda em silêncio, estático, ouvia o som daquele guizo e mirava o brilho das joias como se mirasse os olhos hipnóticos de uma cascavel prestes a dar o bote e a me convencer a pegar aquilo para mim.

Tudo isso durou silenciosos cinco segundos. Uma eternidade. Tempo suficiente para que o meu cérebro confrontasse aquela cena com a lembrança de que eu acabara de retirar do presídio um jovem que, segundo as minhas convicções, fora injustamente acusado de integrar uma quadrilha de ladrões de joias.

Como se ouvisse um estalo, saí daquele estado de quase hipnose e voltei a mim depois de piscar rapidamente os olhos três vezes, dando um passo para trás como se escapasse do bote da cascavel. O rapaz estirou o braço em minha direção, exibindo as joias e insistindo:

— Doutor, são de ouro puro. Pode confiar: valem mais do que o valor dos honorários que lhe devo.

— Meu jovem, não trabalho assim. Acertamos em dinheiro, e não quero mais do que o devido. Passe em meu escritório depois para pagar. Bom dia e até logo.

Virei as costas e saí da casa. Nunca mais vi aquele rapaz nem recebi os honorários devidos.

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