19 de Fevereiro de 2026 às 14:27
O palco, local adequado para que a vida aconteça, corra e ocorra, é onde os personagens de Shakespeare foram imortalizados. Imagine o que seria do palco sem a presença de Ofélia ou do temor à Lady Macbeth. O cinema, em igual sentido, transpõe um local tão vívido e replicável em sua gênese. Ainda que não dotado dos atos, o cinema apresenta sequências, certa espécie de adaptação da linguagem teatral. O cinema precisou, então, encontrar sua própria força da natureza, fazendo de sua linguagem própria para suas encenações. E a linguagem do cinema deve muito ao teatro, sobretudo a Shakespeare. Isto não é segredo para ninguém.
Maggie O’Farrell brilhantemente percebeu que as obras de Shakespeare ainda tinham muito mais a falar, mesmo depois de tão replicadas, estudadas e esgarçadas. Em Hamnet, entende que a vida é feita para a dor, e que a dor é inevitável. Chloé Zhao, que tão brilhantemente já retratou a dor em seus filmes (Songs My Brothers Taught Me, Nomadland), percebeu certeiramente que a vida de Shakespeare possuía um entroncamento simbólico com sua obra mais célebre: Hamlet.
É de se mergulhar em sua fábula nada-shakespeariana, que nos transmite um senso de que a perda é também um local para se transmitir o amor. Os personagens de O’Farrell e Zhao são muito além do que qualquer recorte histórico ou folclórico sobre a vida de Shakespeare poderia retratar. E Hamnet não poupa esforços em se posicionar em um palco que é, ao mesmo tempo voltado para o seu público, mas também voltado ao seu criador.
Por uma escolha mais do que importante, Zhao dedica boa parte de seus esforços em promover um palco adequado para Agnes, personagem de Jessie Buckley, atriz que, há muito, é uma das melhores de sua geração. Agnes é uma força da natureza, assim como o palco em que seu marido, Shakespeare, tanto se importa. Zhao pretende, em linhas mais diretas, representar Agnes como uma gaia de seu próprio mundo. A natureza, se curva aos seus pés, já que é mais que uma pessoa: é uma mulher.
Não à toa, Zhao filma Buckley de maneira tão intimista, daí porque a presença de Lukasz Zal foi tão importante em seu filme. Zal havia filmado Buckley no maravilhoso Estou Pensando em Acabar com Tudo, de Charlie Kaufman, e a diretora precisava, pari passu, representar Buckley de forma precisa, e que o seu cenário fosse uma extensão de sua presença divina. O resultado é espetacular, em uma das mais belas filmagens da carreira da diretora, que já é repleta de representações fidedignas de sua melancolia. Hamnet é cheio de primeiríssimos-planos, nítidos. Os planos abertos são colocados de maneira bem categórica, e é sempre bom ver um push-in lento, algo que presumo ser uma influência direta de Spielberg, que é o produtor do filme.
Mas é na interação de sua Gaia que Hamnet entende que o amor também mora na dor. E nada melhor do que o palco, a força da natureza do teatro, seja o ambiente adequado em que irá explorar suas reflexões. As sequências finais do filme reverberam a alma de qualquer pessoa que já tenha experimentado a dor alguma vez. É incômoda em um nível espiritual. Buckley e Mescal não medem esforços para que a experiência de seus espectadores não seja menos do que a mais profunda possível. O destaque do trabalho de Nina Gold no casting do filme é, como sempre, espetacular, mas aqui o trabalho segue ainda mais profundo.
Pretendendo ou não fazer uma leitura da alma de seus personagens, Zhao deixa para o público julgar o próprio público que experimentou a dor de Shakespeare. Aqui, a dor é compartilhada, nunca única. A dor, através da arte, é suportável. Assim como os personagens de Hamnet transmutam e transferem a dor, através do amor, a arte consegue replicar esta atitude tão humana. E nisto posso dizer que Zhao entende melhor do que ninguém. Sua sensibilidade é compartilhada.
E o palco? É, mais do que nunca, celebrado por ser o espaço em que a vida acontece, chora e sorri. Se Shakespeare entendeu isto melhor do que ninguém, certamente foi porque já teve muito a perder. E o seu palco é e continuará sendo uma força da natureza.
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