Marty Supreme, de Josh Safdie, é a obra definitiva de uma geração

Por David Williams, em CINEMA

Marty Supreme, de Josh Safdie, é a obra definitiva de uma geração

19 de Fevereiro de 2026 às 14:22

 É interessante perceber como a sequência de acontecimentos de nossa vida pode estar condicionada à incerteza de nossas ações. Marty Mauser, personagem de TimotheeChalamet é o tipo de pessoa que ressignifica este conceito metafísico em sendo um explorador das impossibilidades. Regrado em sua própria autoflagelação para o alcance da grandiosidade, somente o impossível parece ser o possível para o protagonista. A reflexão de Josh Safdie em escalonar o ritmo de seus argumentos é uma dádiva que parece umbilicalmente ligada ao legado de Marty Mauser.

Se em “Joias Brutas” os irmãos Safdie alcançaram uma entropia do caos pela sociedade de risco, aqui em Marty Supreme Josh Safdie entende que sua aventura anterior foi meramente um ensaio. Nada seria mais imprevisível que ouvir Alphaville e Tears For Fears em um filme que se passa na década de 1950, mas estranhamente parece o local adequado. A trilha quebra tanto a expectativa que parece ser, ao invés de caricata, extremamente acurada e ao mesmo tempo volúvel. 

Em sua melhor atuação até agora, e em uma das melhores atuações dos últimos 15 anos, Timothee Chalamet parece não precisar se esforçar muito para ser minimamente transgressor. A sua postura nunca defensiva e sempre pronta para partir em uma fuga ou descer por uma escada de incêndio parece ter sido lapidada ao longo de anos. Se de fato é a transgressão de sua atuação, por muito menos sua entrega é menos delinquente. A sua aversão à grandiloquência e o apego ao trato menos informal é característica de sua geração, ou pelo menos a geração com quem mais se identifica, daí porque o personagem é um retrato fiel da Geração Z. 

É estranho, de início, imaginar que isto seja possível, mas é perfeitamente encontrada quando vemos a sua excelente parceira da maioria das cenas, Odessa A’zion, que estrela duas obras que evidentemente replicam, ao mínimo, pelo menos, esta ideia: Wayne e I Love LA. Outro companheiro de cena é Tyler, The Creator, frequentemente estrela da geração a quem o filme se apega. O contraste, sobretudo na personagem de Gwyneth Paltrow é marcante quando percebemos que há pouco diálogo – não em sentido estrito – intergeracional. 

O paralelo entre o trabalho de seu irmão é inevitável. Se em Smashing Machine o trunfo maior é a montagem eletrizante, Marty Supreme bebe ainda mais da cheia-de-néctar fonte que é a capacidade dos irmãos Safdie em montar grandes filmes. E assim como Smashing Machine, Marty Supreme tem um controle absurdo de seu tempo. Josh Safdie se alia das passagens e da trilha genial de Daniel Lopatin para ditar o ritmo e a transposição de cenas. A escolha técnica de filmar com diversos tipos de câmera é cabal em seu resultado visual, aberto a interpretações e confortavelmente não estranho aos olhos da maioria.

E sem perder nenhum momento de triunfo, a narrativa da grandiosidade se constrói nos percalços das miseráveis falhas e comédias de erros que atormentam o protagonista, que, por infortúnio de sua classe, é mais um que depende dos afagos dos grandes. Ao evidenciar o ufanismo japonês, que será tema central do último arco narrativo do filme, ainda que inconscientemente, Josh Safdie reafirma a posição desta geração no mundo, calcada na incerteza pelo futuro, que torce para que o amanhã final não esteja tão próximo, e que o amanhã de louros esteja logo aí. As relações estreitadas de Marty Mauser são, em sua concepção, os pilares de sua antecipação da derrota, em que acredita, quase sempre, que o outro não é uma contribuição, daí porque Marty é tão individualista. Mais um reflexo de seus dias, que em pouco tempo, serão os reflexos de todos os dias.

O saldo final de Marty Supreme é um respiro depois de uma longa jornada. Se a geração de quem o assiste não se identifica, Marty Supreme é uma miscelânea de bons resultados da jornada cinefílica de Josh Safdie. Se a geração de quem o assiste é a contemplada, aquela que, mesmo não tendo vivido os anos 80 e o início dos anos 90 insiste em cartar Wuthering Heights ou Evidências no karaokê, encontra aí o filme que a melhor define. 

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