O Misantropo

Por Lucas Villa, em TEATRO

O Misantropo

21 de Julho de 2020 às 12:58

O MISANTROPO

(ou Vestígios de um Drama Universal)

Atos 1, 2 e 3

 

 

I

 

É um quarto pequeno. Fica no fundo da casa, numa espécie de porão. Nada há nele mais que uma poltrona, uma escrivaninha, um velho guarda-roupa, uma enorme estante de livros, um banheiro e uma pequena janela. Sentado na poltrona, ao centro do quarto vazio, frente a sua escrivaninha e rodeado de livros vive o Misantropo.

Vem-lhe servir almoço, jantar, café e limpar-lhe o quarto algumas raras vezes uma criada, e é ela que, precisamente neste momento, adentra o recinto.

 

Misantropo – Já não é noite e já não hei jantado?

Criada – Sim, no entanto tens visita.

Misantropo – Bem sabes que não me apetece qualquer tipo de visita. Quereis ver animais peludos? As ruas e zoológicos estão cheios deles!

Criada – Insiste tua irmã que deves receber o jovem poeta.

Misantropo – Poeta? Os poetas de hoje cacarejam como as galinhas! É noite e me é justo estar sozinho quando a lua é clara e se derrama através de minha pequena janela. Sabes, tola criada, nada me prende a este mundo, a não ser as janelas e as possibilidades que elas encerram.

 

A criada deixa o quarto. Range a porta, levanta-se o Misantropo e caminha lento até a pequena janela.

 

 

II

 

Misantropo – Como é clara e vaga a eterna noite de meus pensamentos! E como são escuros os que caminham sob a minha lua... A lua dos solitários é sempre a mais pomposa. São como baratas estes que me cercam e que desdenham da minha lua. Por que? Terei eu nascido para afugentar baratas? Tantas são as baratas e suas ascosas antenas! Antenas demasiado sujas e frágeis para captar minhas verdades.

Não, minhas palavras não são para as baratas.

Baratas chamam mentiras todas as verdades que são apuradas demais para serem percebidas por suas antenas tontas. Fujo para minha soledade! Não é destino meu afugentar baratas, e baratas há por demais venenosas lá fora, sob esta lua que se derrama através de minha janela e que torna clara toda a noite de meus pensamentos!

Não, minhas palavras não são para as baratas.

Um dia vivi também lá fora e fui como elas. Hoje, porém, sai deste quarto apenas aquilo que de mim será perene. Um dia fui barata, conheço as dificuldades da transmutação. Hoje não me apetece mais o açúcar ou o coito dos insetos, não me apetece e jamais voltará a apetecer-me o movimento involuntário de antenas. Onde cessa a solidão inicia-se a sociedade das baratas, o fio que as separa é demasiado tênue. Os solitários não devem frequentar a praça das baratas. Os solitários não devem ter como destino afugentar insetos com suas verdades.

Não, minhas palavras não são para as baratas.

 

 

III

 

Em uma sala grande da mesma casa conversam o Poeta e a Irmã do Misantropo. O rapaz é jovem e elegante, a mulher parece cansada e chora.

 

Irmã – Ó! Já há vinte anos se estende esta clausura de meu irmão... de um tudo tenho tentado para trazer-lhe de volta o ânimo e removê-lo daquele porão frio. Minha vida tem sido um pesadelo!

Poeta – Não posso compreender, menos ainda conformar-me! Tudo que ele escreve é tão completo, tão sóbrio e profundo! Que espécie poderosa de demônio interior poderia prostrar num porão criatura de inteligência tão radiante?

Irmã – É tudo tão triste, jovem poeta, é tudo tão triste! Meu marido já não pode mais suportar esta situação. Não temos mais recursos para arcar com a publicação dos manuscritos de meu irmão, além disso, todos renegam nossa família por causa dele, de seus escritos e sua excentricidade. Sua fama corre toda a cidade, meu irmão tem se tornado parte do folclore macabro deste maldito lugar! E meu filho... meu filho tem apenas sete anos e vive assustado... Ele teme seu próprio tio.

Poeta – Mas vós não podeis de maneira alguma deixar de publicar as obras! São demasiado valiosas para a posteridade...

Irmã – Meu marido quer interná-lo. Diz que sua presença aqui traz má reputação à família, além de prejudicar o amadurecimento de nosso filho. Já não sei o que fazer!

 

Desesperada, a mulher abraça o jovem poeta.

 

Irmã – E tudo o que ele quer é escrever! É só o que faz lá dentro: lê, escreve e olha a lua através daquela maldita janela! Só aceita ver-me uma vez a cada semana e nunca por mais de cinco minutos. Eu e a criada somos as únicas que temos acesso a seu exílio. Se algum outro tenta adentrar-lhe o quarto, torna-se agressivo. Sei que preferiria a morte a viver em um hospício!

Poeta – Se eu ao menos pudesse falar-lhe. Mal de todos os gênios esta personalidade turbulenta! Mandar-lhe-ei um bilhete através da criada.

(Trata-se de peça escrita originalmente para teatro, entre os anos de 2001 e 2005. Os atos serão publicados de três em três, aqui no portal “Revista Entrerios”).

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