O Misantropo (Cenas 4, 5 e 6)

Por Lucas Villa, em TEATRO

O Misantropo (Cenas 4, 5 e 6)

28 de Julho de 2020 às 13:40

O MISANTROPO

(ou Vestígios de um Drama Universal)

Cenas 4, 5 e 6

 

IV

 

Dia seguinte. Entra a criada no quarto do Misantropo. Traz-lhe o café em uma bandeja não muito grande nem muito farta. Abaixo da xícara um bilhete. O Misantropo está de pé a olhar a porta como se aguardasse aquele momento.

 

Misantropo – Mal surge o sol e as baratas me já penetram pelas frestas da porta! Entra, ingênuo inseto! Entra e traz-me o que comer...

 

A criada deixa a bandeja por sobre a escrivaninha e move-se com ligeireza para a porta. O Misantropo percebe a presença do bilhete embaixo da xícara.

 

Misantropo – Para, ó criatura intransigente! O que vem a ser este pálido papel em minha bandeja?

Criada – Tua irmã pediu que eu aí o pusesse. É do poeta.

 

Dizendo assim, a criada apressou-se por deixar o porão antes de ouvir qualquer resposta.

 

Misantropo – Poeta? Já não existem poetas desde que deixei de escrever poesias! Talvez no futuro... talvez em um outro crepúsculo. Talvez minha poesia floresça em uma época em que os homens deixem de ser artrópodes, aí sim poderão voltar a existir os poetas.

 

O Misantropo come.

V

 

Dia seguinte. Na sala conversam a Irmã e a Criada.

 

Criada – Estava o bilhete rasgado ao chão já na noite de ontem, quando fui deixar-lhe o jantar. É possível que nem o tenha lido...

Irmã – Inferno!

 

No quarto do porão fala sozinho o Misantropo.

 

Misantropo – Algo há em minha noite que a atira cada vez mais ao caos e à desmedida. Quando adormeço nesta poltrona pareço estar acordando... Nada há, talvez, que eu possa fazer. Que realidade estranha nos cerca e nos condena!

O poeta percebeu-me as palavras. Impossível é apenas o que AINDA não aconteceu, e algo parece ter ocorrido que acaba de deixar de ser impossível.

Improvável, talvez esta seja a verdadeira palavra.

Uma barata quer tornar-se maior que os homens! Mas quem sou eu senão o transformador por excelência? Transformei a mim mesmo e sei o que é a dor da transmutação. É preciso que eu transforme ainda mais... A mim e a outros!

Meus anzóis parecem ter fisgado uma cousa qualquer. É mister que não se deixe de escrever anzóis! E é mister a mim, agora, que recolha e tempere o fruto de minha pescaria.

 

O Misantropo senta-se à escrivaninha e escreve um bilhete.

 

VI

 

Dias depois. Pela primeira vez adentra o Poeta o quarto do Misantropo. O homem que vê não é forte, os cabelos são grandes. Parecem grandes também a barba e o orgulho daquele homem.

 

Misantropo – Sê bem-vindo, tu que te dizes poeta. É preciso saber, porém, que neste quarto passa-se uma outra realidade, talvez a única que existe.

Poeta – Tinha eu sede de conhecer-te, tenho agora sede de te compreender.

Misantropo – Compreender-me é como compreender o pé que pisa e esmaga sem o auxílio da gravidade. Chamei-te porque mordeste minha isca, e bem o sabes.

Poeta – Teus livros...

Misantropo – Minhas palavras, que não são para os insetos. (volta-se à janela, dando as costas ao poeta). Minhas palavras são a chave da transformação. Talvez não te bastem as escritas, e por isso recebi-te. E também porque tuas antenas me não cheiram mal e nem enojam. Não até agora.

Poeta – Sim, são sagradas as tuas palavras, mas responde-me uma pergunta que se não permite calar: por que renegas a vida lá fora?

 

Silêncio. O Misantropo vira-se e olha nos olhos o Poeta.

 

Misantropo – E o que é a vida lá fora, jovem? Pois bem, pergunto-te algo aparentemente mais fácil: o que é a vida aqui dentro? O que somos dentro deste umedecido porão?

Poeta – A vida é a mesma em qualquer lugar. Difícil é explicá-la, porém é sensato vivê-la.

Misantropo – Sensato viver algo que se não pode compreender? Compreendo muitíssimo mal a vida dentro deste quarto e por isso vivo nele com meu interior em mínimos pedaços dilacerado. Não posso entender a vida em um porão, poderia entender a vida no mundo, a vida lá fora? Este é o mundo que criei, e é o melhor dos mundos possíveis! Vivo aqui porque entendo um pouco do que aqui há.

Poeta – Loucura! Não se pode renegar o que se não compreende. Assim sendo a tudo renegaríamos!

Misantropo – É preciso renegar ou ser barata. É preciso proteger-se para que se não comecem a brotar antenas asquerosas da cabeça. Tolo é perceber o mundo de forma medíocre, a mim parece mais sensato não percebê-lo.

Poeta – Li todos os teus livros. Ao contrário dos outros, sei que percebes o mundo lá fora melhor que qualquer um de nós que nele perambulamos diuturnamente. Agora tentas apaziguar-me a dúvida com falsas explicações. Diz-me a verdade!

Misantropo – Verdades são conceitos fluidos. Ainda assim, as minhas verdades são, entre todas, as mais densas. Não há, todavia, verdade alguma que apazigue a mente dos deuses ou dos mentirosos.

Poeta – Chamas-me mentiroso?

Misantropo – Diz-te poeta, hás de ser, então, um deus ou um mentiroso! É preciso conhecer tua poesia para classificar-te.

Poeta – Também escreveste livros de poesia, és tu um deus ou um mentiroso?

Misantropo – Quando escrevo sou Deus, quando sou escrito sou mentiroso.

Poeta – Que queres dizer com “quando sou escrito”?

Misantropo – Acaso tens tu um nome? Acaso tenho eu um nome? Acaso temos nós uma vida? Acaso não somos personagens de um drama doentio no qual nem sequer somos tratados por nossos nomes? Acaso não somos qualquer sorte de impulsos eletromagnéticos na mente de um deus temperamental qualquer? Acaso não somos deuses também quando, ao invés de sermos criados, criamos? É impossível saber-nos apenas deuses ou criaturas, porém se criaturas formos, somos incontestavelmente mentirosos.

Poeta – Por que mentirosos?

Misantropo – Porque não falamos por nós, pois as criaturas não falam por si. Falamos pelos criadores como se falássemos por nós e, consequentemente, mentimos. Mentimos de pior sorte ainda quando criamos o que jamais deveria ter sido criado.

Poeta – É o que fazem os maus poetas?

Misantropo – Teu mundo lá fora está cheio deles. Os maus poetas, os maus músicos, os maus artistas em geral, os maus filósofos. Todos uma mesma escuma fétida de artrópodes. Porém quero agora que te vás, que te vás e releias meus escritos pensando sobre o que já pudeste ouvir aqui hoje. Agora sou teu guia, porém necessário será um dia que tu me renegues como hás de renegar a todas as baratas. Só quando perceberes todos como insetos estarás pronto para o exílio e para a verdadeira criação. É preciso desprezar para ser Deus!

 

(Continua na próxima terça-feira...)

Voltar