Patrimonialismo, classe e a economia do prestígio

Por Joaquim Barbosa de Almeida Neto, em OPINIÃO

Patrimonialismo, classe e a economia do prestígio

26 de Dezembro de 2025 às 18:05

Tornou-se clássico dizer que o Estado brasileiro é patrimonialista. A fórmula, repetida há décadas, não é falsa. Ela captura a confusão entre função e favor, o trânsito de interesses privados no interior do público, a facilidade com que a exceção vira rotina. A lei existe; o que muda é quem a faz funcionar, quando, para quem e com que indulgência.

Patrimonialismo, sozinho, rende pouco quando vira explicação total. Pode virar álibi: põe o vício no Estado, como se o restante estivesse fora do jogo. O Brasil não é só um país onde o público é apropriado; é um país em que a vida social foi — e segue — organizada por hierarquias herdadas da escravidão. Não como lembrança, mas como técnica cotidiana: separar gente “de bem” e gente “de risco”; distinguir quem merece crédito e quem merece desconfiança; decidir quem pode errar sem custo e quem paga caro até por estar perto do erro. Isso antecede o Estado e o atravessa.

O ponto incômodo é este: o Estado não é apenas capturado por relações pessoais; ele é mobilizado por uma elite econômica e social que controla recursos materiais e também simbólicos — o poder de definir o que é “moral”, “moderno”, “aceitável”. A esfera pública, aqui, não funciona como tribunal neutro. É disputa. Reputações se fabricam, prestígios se distribuem, inimigos se escolhem. A indignação — que poderia ser energia republicana — às vezes vira ferramenta seletiva.

“Corrupção”, nesse quadro, muda de natureza. Não é só prática administrativa: vira linguagem política. A mesma palavra moraliza, encurta debates, fabrica salvadores e derruba adversários. Em certos momentos, a política toda se reduz a isso: guerra de pureza. Quando a briga vira moralismo puro, o estrutural fica protegido. Troca-se desigualdade por escândalo, poder por biografia, forma por espetáculo.
República não é sentimento nobre. É forma: controle do poder. Impessoalidade não se pede; se impõe por rotina. Impedimentos efetivos, conflitos de interesse tratados como problema público, trilhas rastreáveis de decisão, responsabilização com custo real. Quando isso falha, não é a Constituição que cai: é o hábito republicano. Aí emerge a solução mais sedutora para um país cansado de procedimento: o salvador.

O herói entra como atalho. Promete o que a forma não entrega. Concentra expectativas, fala por cima das mediações, simplifica o mundo. Ao fazer isso, mexe no que realmente organiza o jogo: a economia do prestígio.

Prestígio é crédito. Autoriza fala, dá licença para decidir, permite impor agenda e tornar rivais irrelevantes. Esse crédito não brota do nada. É produzido socialmente, amplificado, protegido e destruído em arenas muito concretas: meios de comunicação, redes, corporações, aparelhos do Estado, grupos econômicos, partidos, humores coletivos. Quem comanda essas engrenagens não controla só o debate; distribui virtude e culpa.

Num ambiente patrimonialista atravessado por desigualdade, o equilíbrio não se sustenta pela virtude, mas pela gestão “aceitável” de vantagens e reputações no topo. O herói rompe esse arranjo quando acumula crédito reputacional demais. Ele desorganiza a economia do prestígio: reprecifica o risco político e disciplinar de todo mundo ao redor, rebaixa os outros a figurantes. O que vem depois raramente é moral; é cálculo.

Não há um “sistema” único e consciente punindo a virtude exibida. Há coalizões e corporações — políticas, burocráticas, econômicas, midiáticas — que mudam de posição quando o custo de sustentar alguém fica alto demais ou quando a utilidade simbólica se esgota. Gavetas se abrem. Critérios endurecem. Antigos silêncios viram prudência; depois, indignação. Quando a exceção vira método, o herói perde o chão.

A queda não é “correção republicana” automática. É reorganização de poder. Muitas vezes, um sacrifício funcional: expõe-se um personagem para preservar engrenagens. Restaura-se a igualdade por baixo — o cinza administrável em que todos continuam operando.

É nessa chave que o caso Sérgio Moro precisa ser lido sem eufemismo. O que veio a público ao longo do tempo não foi apenas “polêmica”. Foram sinais reiterados de promiscuidade entre juiz e acusação — coordenação, aconselhamento, alinhamento estratégico. Isso atinge o coração do sistema acusatório: a separação entre quem acusa e quem julga. O juiz deixa de ser árbitro e passa a operador. Não é detalhe técnico: é a diferença entre justiça e cruzada.

O arco se completa quando a toga vira degrau: saída da magistratura, entrada no governo, depois carreira eleitoral. A travessia não é só biográfica; é prova de estatuto. O prestígio moral — construído como se fosse superior à política — aparece como capital político explícito. A figura que se dizia acima do jogo torna-se jogador. Daí em diante, o que era “exceção necessária” passa a ser lido como método e ambição.

No caso Alexandre de Moraes, o movimento é outro, mas a vulnerabilidade é da mesma família. A centralidade institucional na defesa da ordem democrática concentrou crédito reputacional. Concentração atrai disputa. E disputa precisa de matéria. A questão do Banco Master entrou como essa matéria: de um lado, o contrato milionário noticiado como firmado com o escritório da esposa do ministro; de outro, a notícia de tentativa de intercessão junto ao Banco Central para evitar a liquidação da instituição. Depois vieram duas notas do ministro negando a intercessão. Negar é obrigação. Não resolve o essencial: em cargos desse tamanho, conflito de interesse não se apaga com comunicado. O que vale é rastro, regra e impedimento. Se houve contato, onde está o registro? Se não houve, por que o assunto apareceu? Sem resposta verificável, o efeito é conhecido: o conflito — real ou aparente — corrói a impessoalidade e dá munição para que coalizões recalculem posições. O guardião vira personagem. A biografia empurra a função para o canto.

O efeito político é quase automático: sai o debate sobre forma institucional, entra a honra pessoal; sai o procedimento, entra o escândalo; sai a República, entra a dramaturgia. Nessa chave, o moralismo seletivo costuma vencer — porque simplifica e porque serve. Não é exclusividade brasileira: a Itália da Mani Pulite viveu ciclo semelhante de ascensão moralizante e reação.

A conclusão é seca. Patrimonialismo explica a porta; classe, quem tem a chave; prestígio, quando a porta vira escândalo nacional e quando vira nota de rodapé. Sem forma republicana — impedimentos efetivos, trilhas públicas de decisão, transparência de contatos, limites claros à exceção e à decisão personalíssima — o país seguirá precisando de salvadores. E seguirá, também, produzindo as condições para derrubá-los quando concentram prestígio demais ou quando deixam de ser úteis.

O patrimonialismo não é derrotado por heróis. É contido por forma. Onde a forma falha, a política vira alternância estéril entre idolatria e demolição — e a República, invocada todos os dias, quase nunca praticada no cotidiano.

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