Rock Nutela X Rock Raiz

Por Erick Miranda, em OPINIÃO

Rock Nutela X Rock Raiz

01 de Outubro de 2017 às 19:59

Algumas vezes já me chegou aos ouvidos uma comparação que, a mim, parece muito sem nexo, mas que me reflete um pouco os valores atribuídos à música de hoje. “Foo Fighters já fez mais sucesso que o Nirvana” e “Dave Ghrol é o cara mais carismático do rock na atualidade”. De cara, vemos que as duas afirmações estão corretas, mas elas querem mesmo dizer algo importante?

Ghrol vende mais discos, lota mais estádios e é um rockstar das altas rodas. Coisa que Cobain e seu Nirvana nunca andaram nem perto. Mas se isso realmente importa para alguém é porque os valores hoje estão realmente invertidos, pois o Foo Fighters representa tudo o que o rock não deveria ser: sem graça, para toda a família, e corporativo. Dave Ghrol nunca arriscou, sempre teve tudo sob controle, nada de perigos, no FF tudo é muito bem estudado, o sucesso é certo, mas não tem relevância nenhuma. Dave saiu da rebeldia para entrar nos trilhos do sucesso mansinho, limpinho e bem cheirosinho. Como a indústria do entretenimento gosta.

Se você pesquisar em livros e revistas dos anos 1970 e 1980, aqui e acolá, vai se defrontar com a seguinte pergunta: “Seriam eles os novos Beatles?”. Mas nos anos 1990 isso mudou para: “Quem será o próximo Nirvana?”. Só isso já mostra a grandiosidade da coisa, quando se fala em Nirvana. Cobain deu um nó no mundo da música, derrubou executivos de gravadoras do mundo inteiro e mudou todo o cenário da música pop mundial quando, em 1991, chutou o poderoso Michael Jackson do 1º lugar das paradas, sem nenhuma estratégia de marketing para isso, e deu o último grito de rebeldia que o mainstream ouviu do rock! Kurt representava o perigo, a desobediência e a excitação de milhões de jovens que se sentiam oprimidos em seus dramas pessoais e se identificavam com o comportamento errático de líder do Nirvana.

O trio era tudo que a indústria não queria, e não quer até hoje, que é o descontrole. Eles enlouqueciam as tv’s, as rádios, os bastidores e o público por onde passavam. Impossível esquecer a trolagem que Kurt fez ao abrir o VMAs de 1992, cantando os primeiros versos de Rape-me, que a MTV tinha o proibido o grupo de cantar, mas quando os executivos mandaram cortar a transmissão, ele começou a tocar Lithium, como havia sido combinado e deixou todos os diretores de cabelo em pé. Em 1994, fez sua gravadora quase surtar ao escolher Steve Albini para produzir seu terceiro disco, que foi praticamente uma antítese ao disco anterior, Nevermind, o qual até hoje é considerado um dos discos mais importantes da história do rock. Qual banda ou artista teria coragem de fazer quaisquer dessas coisas hoje?

O desafio e a imprevisibilidade selvagem do Nirvana, fizeram Axel e toda a sua geração “rock farofa” parecerem beberrões fúteis, já que tudo que eles faziam, era usar drogas e quebrar quarto de hotéis para mostrar sua rebeldia. Cobain, mexeu com gente grande, com as estruturas da indústria, era figura não grata para quem controlava a indústria do entretenimento. Kurt fala com a alma, Dave com os números. Cobain colocava todo mundo na corda bamba e dava emoção para a coisa toda, com shows esporrentos, tortos e imprevisíveis. Ghrol coloca tudo em uma graminha bem segura para todo mundo tomar uma cerveja bem geladinha e curtir, feito ovelhinha comportada, a um show de rock, tecnicamente perfeito. É isso que o rock é hoje, corporativo, para tocar no fim do ano nas repartições, com “nego” de gravata na cabeça gritar “Welcome to the Jungle” e se achar rebelde. Quando alguém grita hoje “o rock morreu...”, penso: essa afirmação não está totalmente errada, levando em consideração que o Foo Fighters é um dos expoentes o gênero hoje, e não só uma banda divertida.

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