28 de Outubro de 2026 às 20:45
Conheci o Ricardo a partir do seu romance de estreia, “O galo de briga”, um livro sobre o cotidiano das rinhas de galo, em Teresina-PI, na década de 1980.
Naquela leitura, percebi estar diante de alguém com uma escrita ímpar e original. E então veio aquela vontade de ler os demais livros de sua autoria, um hábito que cultivo sempre que me deparo com bons escritores.
Em “O dono do partido”, ele nos revela as artimanhas em torno de partidos políticos de aluguel, com figuras caricatas e sem pudores republicanos atuando no Piauí, Maranhão e, claro, em Brasília.
Na obra seguinte, “O caminhoneiro e o andarilho”, temos um reflexivo diálogo entre os dois personagens na boleia de um caminhão que transporta madeira ilegal, durante a noite, nas veredas do Maranhão.
Um fluxo de consciência, em “Urubus famintos”, nos revela o que se passa na mente de um humilde trabalhador e pai de família, enquanto agoniza à beira da estrada após um acidente de moto, sendo observado por urubus que o arrodeiam. Em seguida, o seu velório é disputado por políticos em busca de votos.
O olhar arguto e observador das cenas cotidianas, característica dos grandes escritores, se faz presente em “O fórum de Jurupari e seus demônios”, um enredo permeado de situações cômicas em um fórum imaginário, que poderia perfeitamente ser em algum município do Maranhão, onde Ricardo atua como Defensor Público.
Em “Vendo o mundo pela janela”, uma solitária senhora observa a rotina da cidade da janela do seu apartamento, ao tempo em que demonstra dificuldades em compreender as transformações do mundo e os hábitos das novas gerações.
Além destes romances, Ricardo publicou também dois livros de crônicas, “As mulheres que perdi e outras ilusões” e “Teresina em crônicas”, além de uma robusta obra jurídica de quase 600 páginas, intitulada “Dicionário de Princípios Jurídicos do Direito Brasileiro”.
Vê-se, portanto, que não se trata de um escritor de primeiras linhas, mas de alguém com fôlego para enfrentar os mares dos diferentes estilos de escrita, uma característica rara no mercado editorial.
Fiz essa introdução sobre a produção literária do Ricardo para que o leitor possa compreender um pouco mais o que representa a obra que tem em mãos, pois acompanhei a sua concepção desde quando ele me relatou a ideia inicial, e sempre comentava sobre o que estava lendo para embasar o seu relato.
Recebi os alfarrábios da versão inicial do livro para revisão às vésperas do carnaval. Planejei iniciar a leitura após o período momesco, mas fui traído por uma curiosidade literária que me impeliu a ler os primeiros parágrafos. Não consegui parar e, na quarta-feira de cinzas, finalizei as últimas páginas.
Comparado aos demais livros, este possui mais densidade científica. Arrisco dizer que o leitor tem em mãos uma dissertação de mestrado em ciência política em formato de romance, pois há uma acurada pesquisa sobre as origens do extremismo político, encetada em um relato sem o tecnicismo rebuscado das obras acadêmicas. Uma escrita limpa e coesa, que aborda com profundidade um tema sensível e que julgávamos soterrado desde o alvorecer do milênio: o retorno de regimes autoritários.
O mote da obra gira em torno de um professor à beira da aposentadoria, com dificuldades em se adequar aos novos padrões de ensino baseados em apostilas que engessam a liberdade de cátedra e tolhem o espírito criativo dos alunos. Segundo ele, essas novas metodologias de ensino transformam o professor em “um robô a repetir informações de apostilas, sem qualquer liberdade de buscar entender a real necessidade educacional do estudante.”
Por criticar tais métodos, é constantemente chamado à atenção pela direção da escola. Até que tenta uma última experiência: um debate entre os alunos sobre o extremismo político na história mundial e suas manifestações na atualidade. A turma é dividida em quatro grupos a fim de debaterem o extremismo soviético, o extremismo fascista, o extremismo nazista e o extremismo brasileiro.
A partir desses debates, o livro adentra na seara acadêmicas, tendo por fonte uma vasta pesquisa bibliográfica, todas referenciadas em notas de rodapé. Não faltam menções a Dostoiévski, Nietzsche, Hannah Arendt, Paulo Freire, além variadas menções a Arquipélago Gulag, de Aleksndr Soljenítsyn; Contos de Kolimá, de Varlam Chalámov; O Livro Negro do Comunismo, de Stéphane Courtois; Engenheiros do Caos, de Giuliano da Empoli; M. O Filho do Século, de Antônio Scurati; Necropolítica, de Achille Mbembe e o Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels.
Nas discussões em sala de aula, também há referências musicais a Raul Seixas, Osvaldo Montenegro, Cazuza, Milton Nascimento, Belchior, Chico Buarque, Fagner e Renato Russo, demonstrando como a literatura e a música dialogam com a realidade e servem de alento para os sofrimentos da alma.
Além dos debates em sala de aula, nosso protagonista tem por hábito descontraídas conversas com o amigo Omar, no Truck´s, um tradicional e decadente bar de Teresina-PI. Aqui, mais uma vez, o Ricardo brinca com o leitor, pois impossível não lembrar que o personagem é uma clara referência ao poeta e matemático persa Omar Khayyam, e à sua epícura e suave forma de viver, lhe bastando um pouco de cerveja ou vinho e uma agradável companhia.
S-854 é daqueles livros cuja leitura nos deixam pensativos sobre os rumos da humanidade, com a sensação de que a história tem ciclos de eventos que infelizmente ressurgem de porões que julgávamos eternamente lacrados. Como bem ressalta determinado trecho do livro, “a convivência com o outro é algo incompatível com a cabeça de um extremista. O pior que sempre haverá uma ideologia de plantão para justificar a extinção da pessoa divergente.”
Seja como romance, ou como uma obra acadêmica, o livro serve de alerta para que nunca desviemos das veredas da fraternidade. A literatura, a música e a arte como um todo nos encorajam a seguir em frente, pois conforme diz o protagonista da obra, “se a arte tocou a vida de uma única pessoa, ela valeu a pena”. E vale muito a pena ler S-874.
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