01 de Junho de 2026 às 15:44
“O homem não aspira à felicidade; só o inglês faz isso.” — (Crepúsculo dos Ídolos: Friedrich Nietzsche)
Creio que uma das ideias mais estranhas do nosso tempo seja a de que a felicidade constitui o objetivo natural da existência.
Ela aparece em livros de autoajuda, palestras corporativas, propagandas de bancos, aplicativos de meditação e discursos políticos. Tornou-se uma espécie de horizonte moral compartilhado.
Nietzsche desconfiava profundamente disso.
Não porque fosse um defensor do sofrimento, mas porque percebia algo que frequentemente esquecemos: os seres humanos fazem coisas demais para que a felicidade explique adequadamente suas motivações.
Apaixonam-se por pessoas que os desorganizam. Dedicam anos a obras que talvez ninguém leia. Escalam montanhas. Escrevem livros. Têm filhos. Mudam de cidade. Enfrentam governos. Criam bandas. Persistem em projetos improváveis. Arriscam a própria reputação em nome de uma convicção.
É difícil olhar para a história da arte ou mesmo da vida comum e concluir que o conforto foi o motor dessas escolhas.
Mas existe um impulso mais profundo por trás dessas escolhas. Algo que tem mais relação com intensidade do que com satisfação.
Pensei nisso ouvindo Inferno, o novo álbum do Boards of Canada.
Poucas bandas compreenderam tão bem a estranha relação entre memória e estranhamento. Desde os anos 1990, os irmãos Michael Sandison e Marcus Eoin transformaram ruídos, fitas deterioradas, sintetizadores analógicos e fragmentos de vozes em uma linguagem própria. A música do Boards of Canada sempre pareceu vir de algum lugar fora do tempo. Como uma lembrança que não pertence exatamente a ninguém.
Em Inferno, essa estética alcança uma dimensão ainda mais radical. O álbum soa como uma transmissão recebida de um mundo que continua existindo depois do fim. Há ecos religiosos, frequências perdidas, melodias que surgem e desaparecem. Em vez de nostalgia, encontramos algo mais perturbador: a sensação de que o passado nunca passou completamente e um futuro que nunca aconteceu.
O título é revelador. Durante séculos, o inferno foi imaginado como o lugar do castigo. Mas existe outra leitura possível. O inferno como travessia. Como experiência de confronto. Como o momento em que todas as distrações desaparecem e somos obrigados a encarar aquilo que realmente importa. É nesse ponto que o disco se aproxima de Nietzsche.
A música mais interessante não é necessariamente aquela que produz prazer. Assim como os livros mais importantes não são sempre os mais agradáveis de ler. Algumas obras permanecem conosco justamente porque introduzem uma perturbação. Elas deslocam nossas certezas, alteram a forma como percebemos o mundo e fazem perguntas para as quais não existe resposta satisfatória. A felicidade, nesse contexto, parece uma medida insuficiente.
Procuramos algumas obras literárias porque elas ampliam a experiência humana. Porque tornam o mundo mais complexo. Porque nos devolvem perguntas que julgávamos encerradas.
Penso que Nietzsche estivesse tentando dizer quando ironizou a busca pela felicidade. O problema não é a felicidade em si. O problema é transformá-la no critério supremo de valor. Existem experiências que valem a pena mesmo quando não produzem felicidade. O amor é uma delas. A criação artística é outra. O conhecimento também. Todas exigem algo de nós: tempo, risco, vulnerabilidade, exposição. Nenhuma oferece garantias. Mas são elas que tornam uma vida interessante.
Ao final de Inferno, fica a impressão de que o Boards of Canada compreende essa verdade intuitivamente. O álbum não procura consolar. Não oferece soluções. Não melhora o humor do ouvinte. Em vez disso, faz algo mais raro: cria um espaço para a contemplação do mistério.
Em tempos onde a felicidade é posta como objetivo, essa função da arte é cada vez mais necessária. Lembrar que uma vida não precisa ser confortável para ser significativa. E que a felicidade, embora desejável, talvez seja uma categoria estreita demais para explicar aquilo que os seres humanos realmente procuram quando se lançam ao mundo.
Ninguém atravessa o inferno por felicidade.
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