02 de Março de 2026 às 15:04
Em ¡Átame! de Pedro Almodóvar, a história é simples e desconcertante: um homem recém-saído de uma instituição psiquiátrica sequestra uma atriz com quem teve um encontro casual e decide que ela será a mulher de sua vida. No centro dessa situação extrema, surge a pergunta que orienta todo o filme. Máximo Espejo, o cineasta dentro da própria narrativa, comenta: uma história de amor ou de terror? Às vezes ambas se misturam.
Ricky, protagonista do filme, sai de uma instituição psiquiátrica carregando uma ideia fixa de felicidade. Marina vive entre filmes de horror barato, heroína e um cansaço que não é apenas físico. Quando ele a amarra, o gesto é violência, não há dúvida. O tema é sensível, toca no nervo da Síndrome de Estocolmo, no risco real de romantizar coerção. O filme sabe disso. Não disfarça o desconforto. Mas também não oferece uma moral pronta. O que ele mostra é outra coisa – mostra o amor sem ornamento nem consolo.
Ricky ama como um animal que escolhe e não recua. Ele acredita que a permanência pode ser construída pela insistência. Não é sedução, é determinação bruta. Marina reage com medo, raiva e resistência. Depois observa. Depois calcula. A relação é problemática porque nasce sob desigualdade. É animalesca porque se funda no corpo antes da palavra. E ainda assim, ao longo do tempo, algo se move entre eles.
Ou seja, não se trata aqui de conto de fadas. É negociação instintiva.
O que desconcerta é que a transformação da relação não se dá apenas por submissão. Há uma erosão mútua. Ele cuida. Ela observa. Ele insiste. Ela percebe que aquele homem, ainda que errado, não é apenas um predador, é um órfão emocional. A violência inicial não se apaga, mas se reconfigura.
O sexo não aparece como fantasia elegante. É contato, é tentativa de comunicação primária. As drogas atravessam a narrativa como metáfora e como fato. Marina depende de substâncias para suportar o vazio. Ricky depende da fantasia de amor como quem depende de um remédio contra o abandono. A dependência química e a dependência afetiva se refletem. Ambas são formas de lidar com a própria insuficiência.
Aqui uma referência conveniente é Arthur Schopenhauer. Para ele, o amor não é sublime por natureza. É expressão da Vontade, força cega que usa os indivíduos como instrumentos. Em ¡Átame! o desejo não é elevado, é insistente. Move Ricky com a mesma lógica de sobrevivência que move um animal em direção ao alimento ou ao abrigo. A diferença é que aqui o abrigo é outro corpo.
Quando Máximo pergunta se é amor ou terror, ele toca no ponto exato onde as duas coisas deixam de ser opostas. O terror é a possibilidade de perder-se no outro. O amor é a disposição de arriscar essa perda. Em Ricky e Marina, essas dimensões não estão organizadas. Elas se sobrepõem.
O filme não absolve Ricky. Não transforma Marina em fantasia romântica. O que ele faz é mais desconfortável. Ele sugere que o desejo humano raramente nasce puro. Nasce atravessado por carência, por posse simbólica, por medo de abandono. O exagero da situação revela algo reconhecível.
A normalidade, no fundo, talvez seja menos limpa do que gostamos de admitir. Muitas relações começam com desequilíbrio. Muitas envolvem projeção, posse simbólica, medo de abandono. Em ¡Átame!, tudo isso é intensificado até o desconforto. O exagero cinematográfico funciona como lente de aumento. O resultado não é romântico, nem redentor. É uma observação dura sobre o quanto o amor pode nascer atravessado por instinto, carência e disputa. O filme permanece atual porque não oferece absolvição fácil nem condenação simplista. Ele apenas mostra que o humano raramente é organizado.
Talvez por isso continue perturbando. Porque, sob a superfície do escândalo, há uma pergunta silenciosa sobre o que chamamos de normalidade. E a resposta não é tranquila.
Às vezes é amor. Às vezes é terror. E muitas vezes é uma mistura que preferimos não nomear.
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