05 de Março de 2026 às 12:47
Uma das coisas mais impressionantes, quando leio um livro, é relacionar o que li com outros livros e, a partir daí, começar a fazer perguntas sobre semelhanças ou diferenças entre os assuntos tratados nas obras. É como se eu fosse criando caminhos, trilhas, pontes que vão ligando pensamentos e reflexões que podem, no final, se distanciar da leitura original. Foi lendo Giorgio Agamben, em sua obra “O Aberto: O Homem e o Animal”, que encontrei Jakob von Uexküll. Eu, sinceramente, nunca tinha ouvido falar dele. Percebo que Giorgio Agamben incorpora de modo decisivo Uexküll (Civilização Brasileira, 2017), reservando os capítulos 10 e 11 (págs. 73 a 79) à exposição do conceito de Umwelt e à célebre análise do carrapato, a partir das quais ele desmascara o que chama de “máquina antropológica”. Antes mesmo de adquirir qualquer obra sua, movido pela curiosidade, procurei me informar profundamente sobre esse importante biólogo. Decepcionei-me ao notar que nada consta sobre ele na edição brasileira do Dicionário de Biografias Científicas. Entretanto, não me dei por vencido e resolvi a questão acessando a edição americana através do Archive.org. Lá, no volume 13, páginas 535 e 536, encontrei o verbete que buscava, curiosamente escrito por Thure von Uexküll, filho do próprio biólogo. Jakob von Uexküll (1864–1944) foi um biólogo estoniano-alemão cuja obra exerceu influência profunda não apenas na biologia, mas também na filosofia do século XX. Formado em zoologia, rompeu com o mecanicismo dominante ao sustentar que cada ser vivo habita um mundo próprio, estruturado a partir dos sinais que lhe são biologicamente significativos — aquilo que chamou de Umwelt. Seu pensamento atravessou diferentes campos e foi retomado por filósofos como Heidegger e, mais tarde, por Giorgio Agamben. Fiquei tão surpreso e impactado com o seu pensamento que, automaticamente, encomendei o seu livro, o clássico “Dos Animais e dos Homens: Digressões sobre a Apreensão da Realidade”, que agora se torna indispensável para as minhas reflexões.
Segundo Agamben, o ser humano não possui uma essência definida; ele é o resultado de uma operação que tenta separar, dentro do próprio homem, o que é “animal” (a vida biológica, o instinto) do que é “humano” (a fala, a razão). A máquina antropológica trabalha incessantemente para fechar o homem em uma definição superior, mas, ao fazer isso, ela acaba criando uma zona de exclusão, uma fenda. O “Aberto” para o animal de Uexküll é estar perfeitamente capturado em sua bolha sem saber que está nela; para o homem, o “Aberto” é a experiência trágica de perceber que vivemos cercados por esses limites, sem jamais conseguir uma unidade plena com o mundo exterior. É aqui que o conceito de Umwelt de Uexküll se torna a base biológica dessa angústia. Uexküll nos mostra que cada organismo seleciona apenas os sinais que lhe são significativos, criando um mundo próprio. O carrapato, em seu espaço vital reduzido à luz e ao ácido butírico, vive em uma harmonia cega. O seu espaço vital é um círculo de funções perfeito.
O confronto com o poema de Parmênides torna-se então inevitável. Parmênides não busca simplesmente negar a multiplicidade das experiências humanas, nem desconhece o mundo tal como ele se apresenta. O que ele faz é mais radical: recusa conceder estatuto ontológico pleno àquilo que se oferece apenas na variação sensível. Ao afirmar o Ser uno, eterno e imóvel como a Via da Verdade, Parmênides tenta elevar o pensamento a uma região onde nenhuma fenda é admissível, onde o ser e o pensar coincidem sem resto. Lido à luz de Uexküll, essa esfera parmenidiana pode ser entendida como a tentativa do pensamento humano de produzir uma bolha absoluta: não um simples engano, mas um esforço rigoroso para escapar à fragmentação dos mundos vitais e fixar, no próprio pensamento, uma unidade que o mundo empírico jamais oferece.
A ponte se completa com Peter Sloterdijk e sua trilogia Esferas (especialmente o primeiro volume, Bolhas). A diferença fundamental que traço aqui é que, enquanto o “espaço vital” de Uexküll é um destino biológico automático, a “bolha” de Sloterdijk é uma necessidade imunológica. Sloterdijk argumenta que o homem, ao contrário do carrapato, é um animal “exposto”, que perdeu o abrigo da natureza. Como não temos um Umwelt instintivo que nos feche perfeitamente, somos obrigados a criar nossas próprias esferas artificiais para sobreviver. Entretanto, essa solução de Sloterdijk não é harmoniosa. Se as esferas nos protegem, elas também nos isolam em climas artificiais. A “espuma” social que ele descreve é tanto um sistema de coexistência quanto uma rede de fragmentação e incompatibilidades, onde cada bolha luta para manter sua própria integridade diante do vazio.
No final, essa minha reflexão revela que só o ser humano possui essa capacidade de criar conexões entre pensamentos aparentemente díspares, tateando as paredes das próprias bolhas para vislumbrar o que as sustenta. O pensamento não é um processamento de informações ou uma reação ao meio, mas algo que reside no Ser. É isso que nos permite cruzar o abismo entre a biologia do carrapato e a ontologia grega, pois, como bem disse Parmênides em seu fragmento fundamental:
“Pois o mesmo é pensar e ser.”