Eu descia por dentro de uma montanha. Sim, era um caminho por dentro da montanha, em espiral descendente, contornando sua estrutura, seu corpanzil pedregoso, rígido, quase imutável. Eu descia calma e cadenciadamente, o teto era quebrado e entrecortado pelos raios de sol que desciam pelas frestas, malhando o chão rochoso com a luminosidade amarela e quente.Eu descia sozinho, lembro bem, sem sentimentos eufóricos nem pressa, nem coisa o valha. Eu, descia.E desci.Ao fim, no sopé da montanha,
Basta eu pôr o pé fora de casa, o que tento evitar amiúde, para me confrontar com uma legião de inconformados. Sim, não posso chegar no boteco que, após cumprimentos formais e...
Avista-se a cidade ainda de longe. De carro, de moto, de perto, de fronte; tão logo ela esteja, mais próximo corteja. De perfeitos rabiscos a complicados abismos, à primeira vista, a cidade já mostra seus ares imprecisos. Às vezes perigosos, estes nos tornam à vontade, habituando-nos àquela forma aparentemente estranha, ou por que não audaciosa, de ver a vida.A cidade se mostra, assim, protagonista. Por vezes tranquila, torna-se agitada e soturna, seguindo em consonância com as imperfeições das
Pouco se sabe sobre um grupo formado por: No Pollution – vocal; J. J. Not Dead – guitarra; Junior Mortal Trash – baixo e Torment – bateria. Em 14 minutos eles foram capazes de fazer o que muitas bandas passam uma vida tentando, boa música. O mais surp...
A música o portão, de Roberto Carlos, é um bom exemplo de como a arte pode ser extremamente simples e sofisticada ao mesmo tempo. A letra narra o retorno de alguém depois de um longo período de ausência. Não sabemos o motivo do afastamento, se o narrador é homem, mulher, jovem ou adulto, da mesma forma como não há pistas de quem o recebe com os dois braços abertos e nem qual é o motivo da ausência.Pode ser um filho(a), pródigo(a) retornando à casa. Ou um esposo(a) que se arrependeu de abandonar
Um amigo, leitor do entrerios, perguntou o porquê do meu jejum prolongado no blog. Respondi entre dentes amarelos que era só uma pausa de reavaliação criativa. ‘Não vai dizer que tá faltando assunto’, insistia cinicamente o amigo. Acho que não, repliquei dando uma bicada na cerveja e mordiscando o tira gosto de linguiça caseira. Mas o fato é que pouca coisa anda me interessando ultimamente, incluindo aquela conversa, pensei comigo. Crise econômica, delações premiadas, adulteração da carne e da
Madrugada de sábado para domingo. Quatro horas da manhã. Três amigos sentados e conversando calorosamente ao redor de uma mesa. Resistiam bravamente aos efeitos do álcool. Vinte e seis cervejas (das grandes) consumidas.
A reunião tinha começado por v...
Acredito que o exercício comparativo que se inicia com com a expressão: "Isso lembra..." trata-se de um verdadeiro desfavor ao leitor, um menosprezo à sua prévia capacidade cognitiva.
O "Isso lembra ..." remete a uma relação associativa que possui co...
Certa vez Ferreira Gullar foi abordado por alguém que o perguntou se ele era o famoso Poeta, ao que respondeu: “Às vezes”. A estória era contada por Gullar para ilustrar seu “conceito” de que ser poeta é um estado, não um ofício. Nesse ponto, aliás, o maranhense discordava de João Cabral de Melo Neto, para o qual o poema tinha que ser construído, talhado em pedra, artesanalmente. Trabalhado palavra por palavra. Para Gullar, o poema nasce do arrebatamento, da apreensão de um momento de maneira
Em uma folha em branco, de aparentes contornos precisos, pode-se sempre começar algo novo. Algo este que nos permita um simples rascunho ou que seja um ad eternum em tom de mensagem. Algo tal e qual uma gravura ou, quem sabe, que nos remeta a um discr...