26 de Dezembro de 2025 às 18:02
Observo as cores da Casa-Aquarela e uma mágica acontece: vejo as crianças que eu e meus irmãos fomos e o tempo de repente já não existe. Vejo a nossa infância se misturar com a infância dos filhos que geramos. E todos brincamos juntos , as crianças que fomos correm pelo jardim, misturadas com as que vieram depois de nós. Todos tomam banho de mangueira, pegam frutas nas árvores, exploram o jardim, jogam bola, andam de bicicleta…
Na sala de estar, uma reunião acontece ao redor da mesa. Já é natal outra vez? Ou será algum aniversário? Talvez seja só mais um almoço de domingo…
Na porta principal, o jabuti teima em entrar. Dona Lúcia já mandou tirar. Minha Cacá onde estará? Em algum lugar por aqui, ao alcance da voz e do coração.
No quarto de cima, espio Lucas, que acabou de nascer. Cadê aquela adolescente que estava até agora aqui? Teve um bebê. Mas já? E as duas irmãs que brincavam de escolinha, onde foram parar? Estão agora na casinha de bonecas… A casinha que foi feita não só de alvenaria, mas de sonhos encantados de criança, tornados realidade pelas mãos engenhosas de nosso pai, engenheiro de amor.
No imenso jardim, os cachorros correm juntos. Toda uma dinastia de cães amorosos passeiam livres pelo caminho de pedra portuguesa. De todas as cores e tamanhos, esses personagens inesquecíveis correm animados no meio dos “pés de planta”, refletindo as cores mais vivas dessa aquarela imaginária e feliz.
No tempo da aquarela, as árvores ainda estão todas lá. Intocadas. Mangueiras, jamboeiros, palmeiras, aceroleira… o cajueiro! Pássaros cantam e fazem ninhos. A vida se renova continuamente. Parece um filme, mas era mesmo assim. Plantas, cachorros, jabutis, abelhas, sapos, camaleões, vagalumes, joaninhas, formigas e morcegos integrados em natural harmonia.
Ali, a música nunca parou de tocar. Desde que a Casa era assim muito engraçada, quando não tinha teto, não tinha nada, já tinha por lá um som tocando numa radiola ou num radinho de pilha ao fundo.
Na Casa-Música a trilha é infinita. Não faltam Gal, Gil, Caetano e Bethânia. Doces bárbaros! Sou literalmente embalada por Roberto e Erasmo, John, Paul , Ringo e George, Tom, Elis, Rita, Marisa, Lulu, Toquinho, João (o Gilberto), Djavan, Paulinho da Viola, Reginaldo Rossi, Legião, Xuxa… Seu Acilino tem tudo, ouve tudo. Música nacional, internacional, rock, samba, reggae, forró… Como não crescer amando o rei do baião, os dinossauros do rock, as divas do soul, os grandes tenores, os grandes encontros, a música erudita, a popular, o pop, o brega?
Espio pelas janelas da sala de som e um ritual acontece. Ainda criança, aprendo a manusear a radiola. Pego com cuidado o vinil, retiro do saco, sem tocar na bolacha. Desafio grande para mãos tão pequenas. Coloco no tocador, seguro a agulha com concentração e vou pousando-a delicadamente na faixa já em movimento. É então que a magia acontece… o chiadinho infinito dos segundos que antecedem o início da música… voilá! Pura magia. Quantas vezes vi /fiz esse ritual naquele espaço para mim encantado?
E quantos não foram os encontros realizados ali , regados à boa música? Encontros repletos de presença de gente querida. Festas, aniversários, jantares, almoços, natais, feriados... Sempre com uma música de seu Acilino ao fundo. Ele, sem saber, preencheu nossas vidas de lirismo, vida e cultura. Ensinou a contemplar a chuva da varanda, a valorizar o tempo de “fri” , o cheiro da terra molhada. Ah papai, se todos fossem iguais a você …
E a mamãe, onde está? Minha mãe é assim onipresente. Está em todos os detalhes da casa: na arrumação, nos bibelôs, nas comidinhas, nas brigas do cotidiano (vá ser mãe vá!), nas festas (quem imagina um evento sem ela?), presentes, preocupações, decisões… Ela não pára. Sobe e desce, manda e desmanda, ajeita, organiza e reorganiza, a casa, nossa vida. Ela se desorganiza (vá ser mãe vá!). Depois se recompõe e serve um jantar. E de novo e outra vez. Incansável. Em tudo ela está. A Casa é ela. Ela é a Casa…
A Casa-Ninho me remete a um tempo bom de infância que não volta mais. Tempus fugit! E embora já não exista mais no formato original, remanesce na memória e no coração daquela criança que a habitou. Agora, renasce na forma de uma linda e colorida aquarela. Cores e memórias emolduradas, que eu insisto em guardar perto dos olhos e do coração.
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