27 de Setembro de 2026 às 12:33
Choveu três dias seguidos em Teresina naquele março, e no terceiro a água começou a subir pelos bueiros da Rua João Cabral como se a cidade estivesse devolvendo tudo o que tinha engolido nos últimos quarenta anos. Dona Nair ficou na janela vendo aquilo. Garrafa pet, chinelo, um pé de boneca, folha de jornal virada papa. A vizinha da frente, dona Dalva, gritou do alpendre:
— Quando a água sobe pelo bueiro, Nair, a coisa se revela!
Dona Dalva dizia isso de tudo. De enchente, de gravidez, de eleição. Mas naquele dia Nair guardou a frase como quem guarda um parafuso sem saber de onde ele caiu.
Ademar estava na sala, no sofá de sempre, vendo o jornal da manhã sem som. Quarenta e dois anos de casados. Ademar era manso como cavalo de carrossel: subia e descia no mesmo lugar, na mesma música, e nunca ninguém tinha visto ele sair do trilho. As pessoas achavam bonito. "Seu Ademar é uma paz", diziam. Nair achava também, no começo. Depois passou a achar que paz demais tem cheiro de coisa parada.
Se alguém espremesse Ademar como um tubo de pasta de dente, sairia tédio. Um tédio branco, limpo, com gosto de menta, que ninguém consegue acusar de nada.
*
Foi o quartinho dos fundos que alagou primeiro. A casa tinha sido construída de costas para a mata escura que ainda restava no fim do terreno, um pedaço de mato fechado que os meninos da rua juravam ser assombrado e onde Ademar, por anos, dizia ir "caçar passarinho" nas tardes de domingo. Nunca voltou com passarinho nenhum. Nair nunca perguntou. Tem pergunta que a gente não faz porque já sabe que a resposta vai precisar de um lugar para morar dentro de casa.
A água entrou por baixo da porta e subiu uns dois palmos. Quando Nair foi tirar as caixas do chão, uma delas, de lata, de biscoito Maria, estava com a tampa estufada. Dentro, embrulhadas num saco plástico que não tinha dado conta, cartas. Letra redonda de mulher. Assinadas "Cidinha". A mais antiga era de 1987. A mais nova, de 2003.
Nair sentou num banquinho, com os pés na água, e leu tudo. Algumas estavam borradas, outras inteiras. Não havia nada de muito escandaloso nelas, e talvez isso tenha sido o pior. Eram cartas de alguém que conhecia Ademar. Que sabia de que lado ele dormia, que ele tinha medo de trovão, que ele cantava quando estava sozinho. Ademar cantava? Em quarenta e dois anos Nair nunca tinha ouvido.
Fogo fato, pensou ela, lembrando da avó, que chamava assim tudo que era antigo, enterrado e fedorento: coisa que, se mexer, fede. E ela tinha mexido.
*
Não fez escândalo. Guardou as cartas de volta na lata, secou os pés, fez o café das três. Botou a xícara na frente de Ademar e sentou do outro lado da mesa.
— Cidinha — disse.
Ademar não levantou os olhos da xícara por um tempo tão longo que dava para ouvir a chuva escolhendo onde cair. Depois disse que tinha acabado fazia muitos anos. Que tinha sido coisa de moço. Que nunca tinha deixado faltar nada em casa. Que ele adorava ela, Nair. Adorava.
E era verdade, e isso ela entendeu ali, sem precisar de mais nenhuma palavra. Ademar não a amava. Ele apenas adorava o chão que ela pisava. O chão limpo, encerado, a comida na hora, a camisa passada, os filhos criados, a casa em ordem. Adorava o chão. Quem andava por cima dele era outra conversa.
Nair ficou olhando para aquele homem manso e pensou numa palavra só. Uma palavra que a mãe dela dizia ser coisa de estivador, que o padre Raimundo dizia ser pecado, que ela nunca tinha falado em voz alta dentro daquela casa.
— Porra, Ademar.
Ele se assustou mais com o palavrão do que com a lata de biscoito. E ela percebeu o poder de síntese de um palavrão. Quarenta e dois anos cabiam inteirinhos naquelas duas sílabas.
*
A notícia correu antes da água baixar. Nair só tinha contado para a irmã, Zefinha, por telefone, mas no dia seguinte o grupo das senhoras da paróquia no WhatsApp já sabia de uma versão em que Ademar tinha uma família inteira em Timon, outra em que Cidinha era prima de Nair, e uma terceira, a preferida, em que Nair tinha jogado o café quente na cara dele. Ninguém corrigiu nada. A verdade já não era mais um fato, era aquilo que agradava a quem contava.
Nair assistia àquilo meio de longe e reconhecia um bicho antigo: o espírito de horda. Aquelas mulheres, que uma a uma eram boas, que uma a uma rezavam por ela, juntas viravam outra coisa. O eu de cada uma dava lugar ao grupo, e o grupo tinha fome.
No domingo, na saída da missa, dona Dalva segurou a mão dela com as duas mãos e fez aquela cara.
— Ai, Nair, minha filha, que pena de você.
Nair tirou a mão devagar.
— Não carece de ter pena não, Dalva. Porque se Deus me der chance, não vou ter de ti não.
Dona Dalva ficou sem saber se aquilo era uma bênção ou uma praga. Era as duas coisas.
*
Nair decidiu ir para Parnaíba, para a casa de Zefinha, que era viúva e tinha um quarto sobrando de frente para o rio Igaraçu. Não era separação de papel, não era briga, não era nada que coubesse direito numa frase. Era só ir.
No cartório, onde foi resolver umas coisas de procuração, o escrevente perguntou:
— A senhora é a esposa do seu Ademar, né?
— Meu nome é Nair Ferreira de Sousa. Não me chame pelo meu estado civil.
O rapaz corou e pediu desculpa. Ela não quis ser grosseira, mas não voltou atrás.
Quando a notícia da viagem se espalhou, as mesmas senhoras do grupo passaram a dizer que ela era corajosa, que era um exemplo, que era mulher de fibra. Nair ouvia e achava graça. Uma decisão tomada com sessenta e oito anos, depois de quatro décadas de silêncio, era tão rara que não merecia elogio. Merecia, no máximo, um "até que enfim".
*
Ademar não se opôs. Claro que não. Cavalo de carrossel não pula a cerca do parque. Mas na véspera da partida, Nair o encontrou na mata escura, lá no fundo do terreno, sentado num toco, olhando o nada. Pela primeira vez foi atrás dele.
— Era aqui que você vinha ler as cartas?
Ele fez que sim.
— E por que guardou?
Ademar demorou.
— Porque era a única coisa que eu tinha feito fora do trilho.
Nair olhou para ele e sentiu subir uma raiva quente, feia, com dentes. Reconheceu o bicho: era o monstro que nasce quando o amor acaba. Ele tinha rondado a casa a semana inteira. Mas ali, no escuro das árvores, ela percebeu outra coisa, uma coisa que a incomodou mais que as cartas. O que ela odiava em Ademar, aquela mansidão, aquele medo de sair do lugar, aquela vida inteira engolida, era dela também. Ela também tinha ficado. Ela também tinha escolhido o carrossel. O que nos incomoda no outro nos pertence, dizia um padre velho que ela ouvira no rádio anos atrás, e ela tinha achado bonito sem entender. Agora entendia, e não era nada bonito.
Um casal é uma espécie de caos, pensou. Às vezes luta junto, às vezes cada um luta sozinho, e às vezes um contra o outro. Eles tinham passado quarenta anos na segunda parte achando que era a primeira.
O monstro sentou do lado dela no toco e ficou quieto.
*
No ônibus para Parnaíba, Nair olhava a estrada e pensava que a vida tinha ido afunilando a cada instante. Quando moça, tinha mil caminhos: ser professora, ir para São Paulo, casar com o Tonho da farmácia, não casar com ninguém. Depois foram cem. Depois dez. Depois um só, a Rua João Cabral, a cozinha, o sofá de Ademar. E ela tinha achado que o funil terminava ali. Mas o funil, ela descobriu, também serve para passar alguma coisa de um vaso para outro.
A mulher da poltrona ao lado puxou conversa. Era da Venezuela, estava viajando sem o marido, com os filhos, em busca de emprego, falava um portunhol animado. Nair entendeu quase tudo.
— Meu marido dizia que espanhol é português do Paraguai — contou Nair, e as duas riram muito, mais do que a piada merecia. Era a única piada que Ademar sabia. Nair ficou surpresa de sentir saudade dela.
A vida é uma longa despedida, pensou. A gente se despede da infância, dos pais, do corpo de antes, das certezas. Se despede aos pouquinhos, tão devagar que nem nota. Mas devagar também é velocidade. Ela tinha levado quarenta e dois anos para sair de casa, e mesmo assim tinha saído.
*
Em Parnaíba, Zefinha a esperava na rodoviária com um guarda-chuva que não precisava e um sorriso que precisava muito.
— Tu tá diferente — disse a irmã, olhando bem para ela.
— Tô velha.
— Não. Tá parecendo tu.
— E se eu estiver estragando tudo, Zefinha?
— A vida é tua, mulher. Estraga do jeito que quiser.
E Nair entendeu que envelhecer talvez fosse isso: ir virando, enfim, a pessoa que a gente deveria ter sido o tempo todo. Tarde, mas não tarde demais.
Naquela noite, da varanda, ela ficou olhando o rio escuro correr para o delta, sem pressa nenhuma, e chegando lá assim mesmo. Não sabia como a história ia terminar. Se voltaria para Ademar, se Ademar viria atrás dela, se o monstro ia morrer de fome ou virar um bicho manso de estimação. Não sabia e, pela primeira vez, não precisava saber.
O melhor contador de histórias é o tempo. Ele nunca conta o final antes da hora.
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