Frankenstein: Onde Começa o Homem, Onde Nasce o Monstro

Por Maísa Carvalho, em CINEMA

Frankenstein: Onde Começa o Homem, Onde Nasce o Monstro

24 de Novembro de 2025 às 10:50

Thomas Hobbes dizia que o homem é o lobo do homem; Rousseau dizia que o homem nasce bom, a sociedade o corrompe. Esta é uma dualidade muito comentada - praticamente desgastada - da filosofia. Mas qual é a natureza do homem? O que sobra quando tiramos dele a linguagem, a história, os mitos que inventou para se justificar? Há perguntas que só podem ser respondidas na escuridão, diante de algo que nos olha de volta com olhos que não pedimos para existir. "Frankenstein”, na releitura sombria e terrosa de Guillermo del Toro, abre essa ferida até que já não saibamos distinguir o monstro do criador.

 

Ali, na figura costurada do monstro, não há apenas horror. Há uma espécie de espelho quebrado onde o homem vê sua própria nudez (essa nudez moral que Pascal dizia tentar esconder com infinitas distrações). A criatura caminha pelo mundo como alguém que nasceu adulto e sem história, e por isso mesmo não sabe mentir.

 

Victor Frankenstein, por sua vez, carrega o fardo de Prometeu e a soberba cartesiana do sujeito que acredita dominar a natureza. Ele quer ser Deus na noite gelada do laboratório, mas amanhece homem… exausto, limitado, vulnerável. Del Toro filma essa falha como quem filma um pecado original. Não é a criatura que nasce monstruosa, é Victor que engendra a monstruosidade quando toma para si o direito de fabricar aquilo que jamais compreenderá. Ele encarna o que Kant chamaria de razão desmedida, que atravessa a fronteira do possível sem medir o preço.

 

A criatura vaga pelo mundo como uma pergunta mal formulada. Ela é, ao mesmo tempo, o bom selvagem de Rousseau - puro na sua fome de pertencimento - e o animal feroz de Hobbes, empurrado à violência não por natureza, mas pela recusa de cada mão estendida. É nesse fio de faca que Del Toro constrói sua parábola: não existe essência humana sem contexto, sem o mundo a que somos atirados. Sartre diria que estamos condenados à liberdade; a criatura parece condenada a um abandono ainda mais profundo, aquele de quem sequer teve escolha para nascer.

 

Há cenas em que a criatura olha para o corpo morto de quem tentou amar. Não há ali fúria, apenas o tipo de tristeza que não cabe em palavras. Algo próximo do que Levinas chamava de responsabilidade infinita, o rosto do outro exigindo resposta, ainda que tarde demais. E, no entanto, Victor permanece imerso em sua própria noite, incapaz da ética que recusa a objetificação. O monstro, irônico, é o único que aprende a sofrer pelo outro.

 

A criatura de del Toro não nasce apenas como corpo. Ela nasce como pergunta. E é por isso que, em certo momento do filme, ela deseja filosofar. Deseja saber quem é, de onde veio, por que existe. Não pergunta para planejar vingança, mas para tocar uma espécie de raiz primordial que não sabe nomear. Essa cena, silenciosa e devastadora, revela algo que os antigos já entendiam: a capacidade de interrogar a própria origem é o que nos separa da pura sobrevivência. É o que torna o homem humano.

 

O final do filme é sublime porque revela a inversão moral definitiva entre criador e criatura: enquanto Victor se afunda na culpa e na própria pequenez, incapaz de assumir a responsabilidade por aquilo que trouxe ao mundo, a criatura - feita de restos, rejeitada desde o primeiro instante - alcança a nobreza que seu criador jamais tocou. É ela quem aprende a perdoar, não por ingenuidade, mas pela lucidez amarga de quem compreende que o ódio apenas prolongaria a violência que a gerou. Nesse gesto silencioso, próximo da compaixão de que falava Schopenhauer e do perdão como ruptura defendido por Arendt, a criatura se torna superior ao homem que a criou. E é aí que reside a verdadeira beleza, no fato de que o monstro, afinal, é o único personagem capaz de se tornar verdadeiramente humano.

 

No fim, a obra de del Toro não pergunta “quem é o monstro?”, porque isso seria simples demais. A pergunta é outra: o que fazemos com aquilo que criamos? O que fazemos com a vida quando ela nos interpela, quando ela exige cuidado, reconhecimento, acolhimento? A criatura não é um erro, é uma acusação.

 

E talvez seja esse o ponto mais incômodo: o monstro aprende a amar. E é justamente por isso que ele sangra. A humanidade, nele, não nasce da razão, mas da ferida. Del Toro parece sussurrar que o homem só se reconhece quando já perdeu tudo, quando a noite é tão vasta que o peso de existir se torna inevitável. Como escreveu Cormac McCarthy em outro deserto: o mundo é um lugar onde a beleza e a violência caminham lado a lado, e o homem aprende tarde demais que ambas lhe pertencem.

 

No fundo, Frankenstein não é sobre ciência, nem sobre medo. É sobre responsabilidade, sobre criação, sobre a dor de existir num mundo que não pediu para ser seu. É sobre olhar o outro (mesmo o mais terrível) e enxergar o traço mais antigo da nossa espécie: o desejo desesperado de não caminhar sozinho.

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