20 de Novembro de 2025 às 14:54
Já não tinham vozes nem imagens, a dor que excruciava meu corpo por semanas e que, pela medicação, me deixava no torpor limítrofe da consciência, agora, em leves ondas, trará o relaxamento e o prazer, como sono que viera aos poucos. A última coisa que lembro foi, talvez, a saudade de nunca mais tomar um drink na beira do mar, em dia ensolarado.
Em verdade, essa lembrança não deve ter sido no momento de minha morte, pois que saber que se morre, não se sabe. Não de imediato. A dor passaria e eu levantava, enquanto caminho familiarizado entre cores pulsantes e o chão feito de cosmos. A não estranheza do fato, ante à confusão da mente, é como um sonho psicodélico, onde tudo faz sentido dentro de sua proposta.
Então, enquanto me esvanecia o grosso da matéria, o etéreo estica os horizontes da acuidade e traduz todas as sensações e pulsos e toques e feixes e, porque não, o vazio.
Quando me agacharia, um pouco tonto pela velocidade de tudo, uma mão se estende e me ajudava a levantar. Lá está ele, nada altivo, nada grande, nada imponente, nem nu nem vestido.
-- Onde estou?
-- Você sabe onde é.
-- Acho que acabei de morrer.
-- Você morrerá um milhão de anos atrás.
-- Como assim?
-- Da mesma forma como todas as coisas são.
-- Preciso de algumas explicações.
-- Elas vieram naturalmente.
-- E quem é você?
-- Aquele amarelo canário no fim desse carnaval policromata.
Obviamente aquilo fazia sentido... mais ou menos.
-- Veio me ajudar?
-- Preciso de uma testemunha.
-- Para testemunhar o que?
-- Ora, vamos lá pense um pouco, que lugar você acha que é esse?
-- Onde exatamente não sei, mas parece acima do universo.
-- Você é meio lento, né rapaz! Não estivemos no aqui, estamos no fim de todas as coisas. Ali, tá vendo?
Apontava para um ponto do chão, como o canto de uma sala.
-- Aquela é sua perspectiva. Vamos dar uma olhada!
Pegara minha mão e o planeta era puro fogo, gases tóxicos e erupções. E esfriará, e montanhas e cordilheiras e céu e terra e água e vida. E ela multiplicou e floriu e se extingue e nascerá de novo e evoluia.
-- Uma beleza, hã?
-- Uma perfeição.
-- Você deve ter reparado que entre todas as cores, existe o espaço escuro.
E vi meteoros, vulcões, a terra rachou e a vida quase morria.
-- Mas que também tem muito verde e marrom.
E o ciclo recomeça, porque da brecha mais estreita, ressurgirá o impensável.
Mas aí, no auge do que poderia ter sido, uma enorme rajada de luz vermelha bombardeia o planeta.
-- Penso, seriamente, depois de tudo, que vocês seriam menos tolos.
E mostrou toda a miséria que compõe a tragédia. Toda a carnificina, a intolerância, o preconceito e os erros.
-- Uma decepção.
Seu “rosto”, do dourado acobreou-se um tanto.
Eu não terei mais uma coluna, mas a metáfora é o frio que percorre a espinha.
-- O que exatamente eu vim testemunhar.
Apontará um dedo. E onde tinha, deixou de ter.
-- Trabalhei(lharei) a semana inteira, agora vou dormir. Agora faz o que bem entender.
Pulsou.
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