O Homem Duplicado (Canadá, 2013)

Por Leandro Lages, em CINEMA

O Homem Duplicado (Canadá, 2013)

05 de Maio de 2016 às 01:19

“O caos é uma ordem por decifrar”. Com esta frase, o escritor português José Saramago abre o livro O Homem Duplicado, um dos mais intrigantes de sua autoria.
 
A frase permeia toda a leitura da obra. O personagem central passa todo o enredo tentando por ordem na sua vida e decifrar o caos em que se envolveu após descobrir um sósia muito semelhante a si em uma cena de um filme.
 
Acaso tivesse deixado passar a cena do filme e tratasse o assunto como uma simples coincidência, talvez continuasse a viver a vida simples, tediosa e rotineira de um humilde professor de história solteiro com uma bela namorada.
 
Movido pela curiosidade inerente ao ser humano, optou por encontrar aquele sósia até descobrir que se tratava de um “duplo” seu, idêntico em fisionomia, mas diferente em caráter e personalidade, pois casado, festivo e em confortável condição financeira.
 
A partir daí iniciou o caos em sua vida. Não só na sua, mas também na de seu “duplo”, incomodado com o fato de ter sido levado a descobrir a existência de alguém idêntico a si, chegando até a envolver a sua esposa na trama.
 
Isso o leva a arquitetar uma sórdida vingança atingindo a namorada do outro, que também resolve se vingar ao descobrir o plano, gerando um grande caos a ser decifrado pelo leitor a partir da narrativa impar de José Saramago.
 
Ler Saramago requer a paciência de quem aprecia o deleite das letras, o jogo de frases e as alegorias sutis. Não se trata de um livro de informação rápida apresentando um enredo qualquer, nos faz perceber com profundidade a trama e os sentimentos envoltos.
 
Provavelmente o cineasta canadense Denis Villeneuve não dispensou a devida atenção à leitura da obra ao adapta-la para o cinema. Apesar de manter o enredo central, o diretor acrescentou no filme detalhes inexistentes no livro, como a presença constante e desnecessária de uma aranha.
 
Além disso, dispensou a presença do personagem “senso comum” que sempre dialoga com o protagonista da obra em situações difíceis. O “senso comum” nada mais é que a voz da consciência, transformado em personagem por José Saramago. E como são divertidos esses diálogos e as conclusões!
 
Eis algumas: “Ao contrário do que julga o senso comum, as coisas da vontade nunca são simples, o que é simples é a indecisão, a incerteza, a irresolução” (...) “Infelizmente, o senso comum nem sempre aparece quando é necessário, não sendo poucas as vezes em que de uma sua ausência momentânea resultaram os maiores dramas e as catástrofes mais aterradoras” (...) “O senso comum não passa de uma forma de média aritmética que vai subindo ou baixando consoante a maré”.
 
Apesar da firme atuação de Jake Gyllenhaal, grata revelação em O Abutre (2014), e da envolvente presença de Melaine Laurent, marcada pela personagem Shosanna, do filme Bastardos Inglórios (2009), o filme traz um final diferente e inferior ao do livro, deixando dúvidas quanto ao que de fato ocorreu.
 
Talvez tenha sido pretensão do diretor do filme permitir que o espectador refletisse melhor sobre o enredo e a situação. Seria o “duplicado” um alter ego? Seriam a mesma pessoa em momentos diferentes da vida?
 
A existência de um “homem duplicado” também poderia representar a perda da identidade humana em uma sociedade em que as pessoas cada vez mais uniformizam seus desejos, vontades e necessidades.
 
Ou talvez consistisse no retrato da insatisfação humana. Os dois são idênticos, mas nutrem uma inveja recíproca. Um se interessa pela liberdade da vida de solteiro do outro e por sua bela namorada. O outro deseja a tranquila vida de casado do sósia e a sua estabilidade financeira. E despertam um ódio recíproco com sentimento de destruição.
 
Preferível acreditar que o enredo partiu da grande imaginação de José Saramago, que já havia criado situações extraordinárias em outras obras como o homem que se recusava a morrer em “As Intermitências da Morte”, as polêmicas biografias de Caim e Jesus Cristo em “Caim” e o “Evangelho segundo Jesus Cristo” ou a cegueira coletiva em “Ensaio sobre a Cegueira”.
 
Se mantivesse a fidelidade ao livro, seria um grande filme. Não que seja um livro difícil de adaptar, “Ensaio sobre a cegueira”, por exemplo, pode ser considerada uma obra de difícil adaptação, mas o filme conseguiu ser fiel dentro das limitações imaginárias que o cinema enfrenta ante as obras literárias grandiosas.
 
Mas o diretor canadense quis ser maior que Saramago ao propor a releitura de uma obra de arte literária e, obviamente, não conseguiu e terminou produzindo algo bem inferior ao livro.
 
Se tivesse acrescentado 15 minutos de filme para as últimas 30 páginas do livro e inserido o personagem “senso comum” para curtos diálogos com o ator, o filme passaria de “bom” para “excelente” na escala de qualquer amante da sétima arte.
 
Para uma grata surpresa, recomenda-se assistir ao filme e depois ler o livro. Após devorar as últimas páginas de “O Homem Duplicado” será possível compreender por que o caos é uma ordem a se decifrar.
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