Vou ali morrer...

Por Leandro Lages, em CONTOS

Vou ali morrer...

27 de Agosto de 2023 às 23:12

- “Vou ali morrer”, ele disse.

Mal terminou a frase, levantou da cadeira com dificuldades e caminhou, passos lentos, apoiado na bengala, em direção ao seu quarto.

Era um octogenário de quase noventa anos, por quase toda a vida um fumante inveterado, alcóolatra de quase todos os dias e sem limitações gastronômicas.

Após a viuvez, sem os freios que a esposa tentava impor, redobrara os vícios.

Por exigências médicas, nos últimos anos viu-se compelido a abandonar todos esses prazeres. Mantivera apenas o sedentarismo como único hábito persistente.

Sua rotina se resumia a dias inteiros de repouso, alternando entre o balanço vertical da cadeira de balanço e o balanço horizontal da rede a balançar.

Sempre que estava a rememorar a sensação do cigarro a invadir seus pulmões, do álcool a entorpecer o seu cérebro ou de seu paladar a degustar fatias de doce de buriti, alguém chegava com a medicação para relembra-lo de cardiopatia, diabetes, hipertensão, enfisema e tantos outros problemas que os contínuos exames revelavam.

Nos últimos tempos passou a maldizer o santo Deus. Na verdade, primeiro começou a pedir a Deus que o levasse logo, afinal, não mais via sentido na vida. Com o pedido não atendido, as súplicas se transformaram em revolta.

Naquele dia, a sua paciência com o divino se esgotou. Levantou da cadeira e, convicto, anunciou ao filho que o fazia companhia: “vou ali morrer”.

Entrou no quarto, deitou-se na rede e passou a aguardar a visita daquela que é indesejada por muitos.

Passadas algumas horas, seu filho o ouviu confabulando sozinho. Entreabriu a porta do quarto e o presenciou mencionando o nome de sua finada esposa, de familiares e de alguns amigos, todos falecidos. Conversava serenamente com uma plateia invisível.

Durante o inusitado diálogo, lançou um olhar de reprovação para um canto vazio e ralhou: “E você, Aderbal, depois de tanto tempo, veio me pagar aquele conto de réis?”

Encerrou a conversa com um resignado “pois então, tudo bem” falado para o vazio, enquanto repousava a cabeça na rede e abraçava a si mesmo com carinho, deslizando as mãos suaves dos ombros aos cotovelos e de volta aos ombros.

E foi no delírio desse breve abraçar sereno que veio o seu último e resoluto suspiro.

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